Fevereiro é o mês de conscientização do Alzheimer e há novidades a serem divulgadas para a população, segundo a geriatra e professora da Unicap, como o desenvolvimento de novos fármacos e a consolidação de evidências sobre fatores de risco que podem ser modificados. A ação de vacinas na prevenção ainda não está comprovada, mas é um achado promissor. O avanço das pesquisas sobre Alzheimer vem redesenhando o entendimento científico da doença e ampliando o debate público sobre prevenção, diagnóstico e cuidado. Se antes o tema estava restrito à neurologia e à geriatria, hoje ocupa espaço estratégico nas políticas de saúde, especialmente diante do envelhecimento acelerado da população brasileira. Entre terapias modificadoras recentemente registradas no País, novos biomarcadores sanguíneos e evidências robustas sobre fatores de risco preveníveis, a discussão deixa de ser exclusivamente clínica e passa a dialogar com educação, vacinação, controle de doenças crônicas e organização da rede assistencial. Em Pernambuco, onde o envelhecimento populacional avança em ritmo significativo e os desafios estruturais do sistema de saúde persistem, o enfrentamento das demências exige integração entre atenção primária, especialistas e suporte às famílias. O subdiagnóstico ainda é uma realidade preocupante, particularmente no Nordeste, e reforça a necessidade de qualificação profissional, campanhas de conscientização e políticas públicas efetivas que garantam diagnóstico mais precoce e acompanhamento contínuo. Para analisar esse cenário sob a perspectiva científica e assistencial, a médica geriatra Carla Núbia Nunes Borges concedeu entrevista a Larissa Aguiar. Geriatra, docente da Unicap, coordenadora dos programas Idoso e Seus Mundos e Como Cuidar do Idoso em Casa, médica da Rede D’Or Star Recife e da UTI Geral do Hospital Agamenon Magalhães, além de ex-diretora da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer), Carla detalha os avanços mais recentes da ciência, explica por que o Alzheimer ainda é identificado tardiamente e aponta caminhos concretos para fortalecer a prevenção e o cuidado integral no Brasil. Do ponto de vista científico, o que há de mais recente e consistente nas pesquisas sobre o Alzheimer, especialmente em relação à prevenção e ao tratamento da doença? Nos últimos anos houve uma evolução expressiva no diagnóstico, no tratamento e, principalmente, na incorporação da prevenção ao centro da discussão científica. A doença foi descrita em 1906 por Alois Alzheimer que identificou alterações fisiopatológicas características. Contudo, apenas cerca de 80 anos depois consolidou-se a hipótese da placa beta-amiloide como marcador central do processo patológico. Na década de 1990 surgiram os primeiros tratamentos sintomáticos. Já entre 2017 e 2020, a prevenção passou a ocupar posição estratégica no debate científico. Hoje destaco dois grandes avanços. O primeiro é a consolidação das evidências sobre fatores de risco modificáveis. A atualização de 2024 da Lancet Commission estima que cerca de 45% dos casos de demência possam ser potencialmente preveníveis ao longo da vida com o enfrentamento de 14 fatores de risco, incluindo hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, depressão, inatividade física, isolamento social, poluição do ar, perda auditiva, perda visual e colesterol LDL elevado. No Brasil, considerando a prevalência desses fatores na população, o potencial preventivo pode ser ainda maior. O segundo avanço é o surgimento das terapias modificadoras de doença em estágios iniciais. Anticorpos monoclonais antiamiloide, como o lecanemabe e o donanemabe, demonstraram desacelerar o declínio cognitivo em pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve por Alzheimer, desde que haja confirmação da patologia amiloide. A magnitude do benefício é considerada modesta, porém clinicamente relevante para parte dos pacientes. No Brasil, a Anvisa registrou o donanemabe em 2025 e o lecanemabe no fim de 2025/início de 2026, com indicações e critérios rigorosos de uso. Apesar dos avanços da ciência, o diagnóstico precoce ainda é apontado como um dos maiores desafios. Por que o Alzheimer continua sendo identificado tardiamente na maioria dos casos? Porque a doença se instala de forma insidiosa. No início, a pessoa costuma compensar esquecimentos com anotações, rotinas estruturadas ou ajuda do cônjuge, o que mascara o impacto funcional real. Além disso, persiste a ideia cultural de que “esquecer faz parte da idade”, somada ao medo do diagnóstico, o que contribui para a normalização dos sintomas e para o estigma. Há também gargalos estruturais: a atenção primária nem sempre dispõe de tempo, treinamento ou protocolos padronizados para rastrear declínio cognitivo precocemente. O acesso a especialistas é limitado e exames confirmatórios, como PET amiloide ou biomarcadores no líquor, ainda são restritos. Estima-se que cerca de 80% das pessoas com demência no Brasil não tenham diagnóstico formal, situação ainda mais grave no Norte e Nordeste. Quais são os primeiros sinais cognitivos e comportamentais que familiares e profissionais de saúde devem observar, e que ainda costumam ser confundidos com o “envelhecimento natural”? O envelhecimento normal pode trazer lentificação (processamento mental mais lento), mas não costuma provocar perda progressiva com impacto funcional. Entre os sinais precoces estão repetição de perguntas, esquecimento de conversas recentes, dificuldade para planejar finanças ou organizar medicações, desorientação em datas e trajetos familiares e dificuldade para encontrar palavras. Mudanças comportamentais (alterações de comportamento) também merecem atenção: apatia, retraimento social, irritabilidade ou desconfiança podem ser interpretados como “traços de personalidade” ou “depressão da idade”, quando na verdade podem representar pródromos (sinais iniciais) da doença. Alterações nas atividades instrumentais da vida diária (tarefas complexas do cotidiano, como compras e gestão financeira) costumam ser um dos melhores termômetros clínicos. Existe hoje algum marcador clínico ou exame que já permita maior precisão no diagnóstico em estágios iniciais, ou ainda estamos dependentes principalmente da avaliação clínica? A avaliação clínica (análise médica baseada em sintomas e exame do paciente) continua sendo central, mas houve avanço importante nos chamados marcadores biológicos (substâncias ou exames que indicam presença de doença). PET amiloide e PET tau (exames de imagem que detectam proteínas anormais no cérebro) apresentam alta acurácia, embora tenham custo elevado e baixa disponibilidade. Biomarcadores no líquor são bem validados e amplamente utilizados em centros especializados. Mais recentemente, biomarcadores sanguíneos, como o pTau217 (proteína tau fosforilada detectável no sangue associada ao Alzheimer), começaram a sair do ambiente exclusivamente laboratorial para a prática clínica. Nos Estados Unidos, um teste sanguíneo foi liberado como ferramenta