Arquivos Entrevistas - Página 20 de 29 - Revista Algomais - a revista de Pernambuco

Entrevistas

“Acreditamos no design como uma ferramenta a serviço da transformação.”

A experiência do Laboratório O Imaginário, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), é um exemplo de sucesso de como a a academia pode intervir de forma respeitosa nas comunidades e ajudá-las a empreender, gerar renda e, ao mesmo tempo, valorizar suas culturas e tradições, empoderando seus integrantes. “Imaginar que a sociedade banca a geração desse conhecimento (acadêmico) e não fazer uso dele é inadmissível”, defende Ana Andrade, arquiteta que coordena o Laboratório com a professora Virgínia Cavalcante. Só para ficar num exemplo deste trabalho, no quilombo Conceição das Crioulas, a confecção de bonecas inspiradas nas seis mulheres que fundaram a comunidade garante a sustentabilidade de seus integrantes e aumentou a autoestima das artesãs que, hoje, vendem as suas criações até para o museu Masp, em São Paulo. Nesta conversa com Cláudia Santos, Ana Andrade fala das estratégias e dos resultados desses 20 anos de atuação da iniciativa que transformou a vida de vários artesãos. Como surgiu a ideia da criação do Laboratório O Imaginário? Na época (2000), eu era diretora de cultura da UFPE e trabalhava com a pró-reitora Célia Campos, durante o reitorado de Mozart Neves. Nesse momento, tentando fazer as coisas mais eficientes e concisas, criamos o Centro Cultural Benfica. Ele reunia todo o acervo da universidade em termos de arte, arte popular e arte contemporânea. Constatamos que tínhamos um acervo valiosíssimo na área de arte popular. Fui professora do Departamento de Design da UFPE, durante muitos anos, e essa aproximação deu um estalo, confirmado com oportunidades que aconteciam, naquela época, com o Programa Comunidade Solidária, no governo de Fernando Henrique e que teve como figura muito marcante a doutora Ruth Cardoso. Ela fez um fortalecimento da extensão universitária e provocou uma grande aproximação da universidade com programas de inclusão social do Comunidade Solidária. Havia os programas Artesanato Solidário e o Universidade Solidária. Assim, a pró-reitoria de extensão, juntando as diretorias de Cultura e de Extensão, investiram nesse programa que buscava fazer com que o estudante reconhecesse essas realidades diferentes daquela em que ele estava inserido e pudesse e contribuir. Unimos essas oportunidades e, daí, surgiu o Laboratório, que é um laboratório de design formado por professores do Departamento de Design da UFPE, mas também por outros professores de outros departamentos, bem como estudantes e técnicos, com a ideia de fazer com que o design, de fato, seja um instrumento da sustentabilidade. Acreditamos no design como uma ferramenta que pode estar a serviço da transformação. Como vocês conseguem introduzir o design, agregando valor ao artesanato, sem ferir a essência e a tradição artesanal? Há duas questões que precisamos pontuar. A primeira é o respeito ao conhecimento popular. Mesmo sendo da academia, temos que reconhecer o valor do conhecimento popular, das pessoas e de seus saberes. Essa questão de valor e respeito está intrínseca na ação junto a qualquer comunidade, não só a comunidade artesanal. O outro ponto é que o design tem uma natureza interdisciplinar. Só se consegue fazer design se houver uma boa interlocução com o contexto. Neste sentido, existem as questões relativas à forma, ao material e à maneira de se produzir. E há também as questões relacionadas às suas funções: como e para que se usa determinado objeto, como ele deve ser feito para ser usado melhor e proporcionar mais conforto e segurança e, até mesmo, incluir a questão plástica, se imaginarmos que decoração é também uma função. Existem ainda as questões relativas aos significados que são relacionadas também ao valor nessa interlocução com o mercado e na valorização do contexto. Então, respondendo, eu diria o seguinte: o design, pela sua natureza, tem a capacidade de fazer essa interlocução com o mercado e ela tem que ser feita com base no respeito ao conhecimento e ao valor dessas pessoas com quem se está lidando. Você poderia contar a experiência d’ O Imaginário na comunidade quilombola Conceição das Crioulas no Sertão? A experiência em Conceição das Crioulas foi fundamental porque foi por intermédio dela que conseguimos fazer um desenho de um modelo de intervenção. Inicialmente, nós trabalhávamos com o Sebrae para atender grupos de artesãos de diversas localidades, com diversos interesses. O que observamos nesse modelo era que as oficinas que realizávamos para os artesãos não tinham sustentabilidade. Terminada a oficina, não havia continuidade porque conciliávamos interesses, modos de fazer e histórias diversos. A oportunidade de atuarmos em Conceição das Crioulas, através do programa Universidade Solidária e depois do Artesanato Solidário, permitiu desenharmos um modelo que tinha como foco a comunidade, sua história, seus valores, seus desejos e seus produtos e, a partir desse entendimento, montava-se uma ação que não visava apenas ao produto dos artesãos, mas o produto, a forma de fazer, a história do local, as oportunidades que o local fornecia e as capacitações para inclusão de mais pessoas nesse fazer, a melhoria desse fazer, todas as questões que poderiam valorizar o local a partir de um produto simbólico que foram as bonequinhas de Conceição. Por meio delas, traduziu-se toda a história da comunidade, seu mito fundador das seis negras que compraram as terras ao imperador, começaram a plantar algodão e ergueram o povoado. A junção dessas oportunidades e esses reconhecimentos garantiram o sucesso de um projeto. A gente conseguiu fazer com que ele continuasse acontecendo, independentemente da gente estar presente no local durante todos esses anos. Elas hoje expõem no Masp, trabalham e o protagonismo da mulher foi fortalecido. Os homens se inseriram para facilitar e aumentar a produção. Enfim, realizamos tudo que achávamos que podia acontecer nessa maneira de fazer. Não é só fazer oficinas específicas, mas investir, inclusive, naquilo que a comunidade queria naquele momento, que era o reconhecimento do seu território nas brigas de terra com os posseiros. Para ajudar, chegamos até a fazer site e um jornal chamado Crioulas. Todas essas ações, inclusive, de comunicação, ajudaram a tornar o projeto, de fato, sustentável com o empoderamento das quilombolas. Leia a entrevista completa na Edição 180.3 da Revista Algomais: assine.algomais.com

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"As mulheres negras são maioria entre as que perdem suas vidas por feminicídios"

Na semana do 8 de Março, conversamos com Glauce Medeiros sobre violência de gênero, políticas públicas e sobre a sua gestão na Secretaria da Mulher da Prefeitura do Recife. Socióloga, com mestrado em Extensão Rural e Desenvolvimento Local, ela tem uma trajetória acadêmica e profissional dedicada à luta por igualdade social e de gênero. A violência contra a mulher, que é um dos principais temas de todas as estruturas públicas voltadas para a população feminina, aumentou com o confinamento? O que já se sabe sobre esse fenômeno? O estudo Violência Doméstica Durante a Pandemia de Covid-19 feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou aumento de 22% dos casos de feminicídio no Brasil só nos dois primeiros meses de pandemia, ao passo que as denúncias de casos de violência contra a mulher nas delegacias diminuíram. A subnotificação da violência contra a mulher aumenta em períodos de isolamento. É preciso ficar em casa para salvar vidas, mas mantemos nossos serviços para que as mulheres tenham o apoio necessário quando estiverem em situação de violência. O confinamento aumentou a vulnerabilidade das mulheres ante os seus agressores. A necessidade de isolamento fez com que as mulheres vítimas de violência passassem a ter convívio exclusivo com os agressores, e as manteve afastadas do convívio com familiares e amigos, e sob vigilância do agressor, o que diminuiu as possibilidades de denunciar e de pedir ajuda. Desse modo, a subnotificação aumenta ainda mais. No início da pandemia, a Prefeitura do Recife disponibilizou o serviço de orientação por Whatsapp 24h, e garantiu o atendimento presencial e pelo Liga Mulher das 8 às 18h. Realizamos também a campanha Ficar em casa não é ficar calada, com vídeos e cards para a internet e cartazes distribuídos em postos de saúde supermercados e farmácias. Os casos de violência doméstica atingem mulheres de todas as classes sociais ou existe alguma classe que sofre mais este tipo de agressão? A violência contra a mulher não tem classe social, mas a autonomia financeira impacta diretamente nas condições concretas para que as mulheres saiam do ciclo violência. Desta forma, infelizmente, as mulheres negras, que estão na base da pirâmide social, são maioria entre as que perdem suas vidas em decorrência dos feminicídios. De acordo com os dados do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, 73% das mulheres que morrem pela condição de gênero são mulheres negras. Qual tem sido a principal agenda da Secretaria da Mulher neste período de plena pandemia? Neste período de pandemia, a Secretaria da Mulher tem centrado esforços na prevenção e no enfrentamento da violência contra a mulher por meio da ampliação dos nossos serviços de atendimento e acolhimento. Os atendimentos feitos pelo Centro de Referência Clarice Lispector, de orientação jurídica, acompanhamento psicológico e social para mulheres vítimas de violência doméstica e sexista, passaram a ser realizados também nas unidades do Compaz. No dia 8 de março, o prefeito João Campos anunciou a autorização para ampliarmos o horário de atendimento presencial do Clarice Lispector para 24 horas. A rede municipal de proteção das mulheres em situação de violência conta ainda com a Brigada Maria da Penha, uma parceria da Secretaria da Mulher e da Secretaria de Segurança Urbana, e com o Centro de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sony Santos, o centro fica dentro do Hospital da Mulher do Recife e é coordenado pela Secretaria de Saúde. A Prefeitura do Recife é a primeira capital do País que instituiu uma paridade de gênero nas suas secretarias, com 50% dos postos ocupados por mulheres. Em que essa decisão influencia no trabalho da gestão municipal? Essa medida traz um simbolismo muito grande, mas é também uma política efetiva na construção da igualdade gênero. Esse gesto indica o compromisso da gestão com a promoção da igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens. E garantir a paridade de gênero no secretariado significa que a tomada das decisões que impactam o dia a dia das mulheres vai ser pensada por quem também vivencia as consequências de viermos em uma sociedade que oprime as mulheres. As políticas públicas para mulheres têm muito forte a característica da transversalidade, então ter mulheres nas diferentes áreas de atuação fortalece a formulação e execução de políticas específicas para esse público em todas as áreas. Ter mais mulheres em cargos de poder contribui para termos uma sociedade que trate as mulheres com mais respeito? Sim. A disparidade de representação entre mulheres e homens nos cargos de poder é fruto de um conjunto de desigualdades historicamente construídas e socialmente naturalizadas, que relegaram às mulheres ao espaço privado e às funções domésticas e de cuidado. Quebrar essa barreira e ascender aos postos de comando é romper também com o padrão de pensamento e comportamento que estrutura não só essa, como outras opressões. É uma reação em cadeia, em que a conquista de um direito pavimenta o caminho em direção à equidade. A senhora está ainda nos primeiros meses à frente da Secretaria da Mulher. Quais marcas ou legados a senhora gostaria de deixar até o final desse mandato? Assumir a pasta da Secretaria da Mulher é um grande desafio, o cotidiano de trabalho é muito intenso, mas só é possível realizá-lo, em razão de uma equipe totalmente comprometida e uma gestão integrada. As políticas para mulheres só têm robustez se desenvolvidas de forma transversal, e hoje tenho a felicidade de fazer parte de uma gestão que enfrenta as desigualdades de gênero de forma efetiva, garantido a paridade de gênero nos cargos de lideranças. Esse é um legado histórico, uma importante marca da gestão do prefeito João Campos. Enquanto secretaria, queremos servir cada vez mais e melhor a nossa população, contribuir com políticas públicas estruturadoras para as mulheres, promovendo a autonomia financeira e gerando oportunidades, realizar ações de prevenção da violência doméstica e sexista, sempre garantido serviços de qualidade nos equipamentos de atendimento às mulheres em situação de violência. Tudo isso dialogando com os vários setores da sociedade.   A senhora tem trabalhado no movimento de

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“Ter mulheres ocupando posições de liderança não é uma opção, é uma necessidade.”

Empresas que planejam o futuro dos seus negócios devem pensar seriamente na posição que as mulheres ocupam no seu time de funcionários. Estudo da McKinsey & Company apontou que dos nove traços identificados como essenciais para as lideranças enfrentarem os desafios que estão por vir, elas se saem melhor em cinco e empatam com os homens em dois – estímulo intelectual e comunicação eficiente. “A favor das mulheres estão a capacidade de inspirar e servir como modelo de conduta, a participação ativa nas decisões, o equilíbrio entre expectativas e recompensas e o desenvolvimento de pessoas”, especifica Pollyanna Cavalcanti, diretora de pessoas, cultura e performance da empresa Avantia. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Pollyanna analisa por que, mesmo com todas essas vantagens, mulheres em cargos de liderança ainda são exceções no Brasil e no mundo. Entretanto, existem saídas. Pollyanna aponta algumas delas, como implantar políticas afirmativas nas empresas que estimulem uma cultura inclusiva. Ela também ressalta a importância dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU – que inclui a igualdade de gênero – do papel do RH nesse processo e do entendimento de que a maternidade não seja vista como uma pausa ou uma perda no período produtivo da mulher. Quais as vantagens que as empresas podem ter ao contarem com mulheres no seu time e em cargos de liderança? Melinda Gates disse recentemente que “se você quer elevar a humanidade, empodere as mulheres. É o investimento mais amplo, universal e com maior potencial de alavancagem que podemos fazer pelo bem do ser humano”. Eu acredito que esse empoderamento se faz necessário para que as organizações possam, de fato, exercitar a diversidade de pensamentos e ideias e, consequentemente, promover ambientes mais inovadores e sustentáveis. Em um estudo da McKinsey & Company, dos nove traços identificados como essenciais para as lideranças enfrentarem os desafios futuros, as mulheres se saem melhor em cinco e empatam com os homens em dois – estímulo intelectual e comunicação eficiente. A favor das mulheres estão a capacidade de inspirar e servir como modelo de conduta, a participação ativa nas decisões, o equilíbrio entre expectativas e recompensas e o desenvolvimento de pessoas. Logo, na minha opinião, ter mulheres ocupando posições de liderança não é uma opção. É uma necessidade. Por que as mulheres no Brasil ocupam hoje apenas 34% dos cargos de liderança sênior nas empresas, segundo mostram alguns estudos? Corroborando sua pergunta, a Mckinsey publicou um estudo em 2020 que trazia uma fotografia semelhante: a cada 100 homens promovidos para posições de gestão, apenas 85 mulheres eram promovidas. Esse gap aumenta ainda mais quando falamos de mulheres negras. Quando paramos para avaliar as justificativas, vemos inúmeros fatores, tais como: processos seletivos que não garantem amostras equivalentes de candidatos (internos/externos) para as vagas em questão; ausência de políticas afirmativas nas organizações que estimulem uma cultura mais inclusiva e apoiem as mulheres em novas posições; ausência de programas de capacitação e mentorias para mulheres em posições de liderança. Além desses pontos, os desafios gerados pela crise da Covid-19 também trazem um grande alerta: muitas mulheres foram desligadas ou consideram deixar seus empregos por não conseguir conciliar suas atividades do trabalho com os cuidados do lar e criação dos filhos. Ou seja, com essa baixa de mulheres no mercado, a tendência é ter cada vez menos mulheres em posições de liderança atuais e futuras. . Pesquisas também mostram que mulheres em posição de liderança ganham em média 25% a menos que os homens. Como alcançar a igualdade? Nenhuma empresa declaradamente remunera homens e mulheres de maneira diferente. Porém, vários estudos comprovam que a diferença existe, sim. Então, para se alcançar a igualdade, várias medidas precisam ser adotadas em ambos os lados. Nas empresas, considero importante que: o espaço para negociação de remuneração (tanto nas contratações, quanto nas promoções) seja ampliado, tanto pela área de RH quanto pelos próprios líderes; a maternidade não seja vista como uma pausa ou uma perda no período produtivo da mulher; contratações, promoções ou indicações para assumir novas posições não sejam repensadas pelo fato da mulher ser mãe. As mulheres por sua vez, precisam aprender a negociar melhor suas condições de remuneração, buscar seu espaço de fala e, também, a dizer não para cenários que não sejam favoráveis. O caminho é longo, mas não impossível. As escolhas que fizermos hoje, certamente irão nortear o ritmo das mudanças e alcance da igualdade em nossos ambientes de trabalho. O que você acha da iniciativa da ONU de incluir entre os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas? Importantíssima. Na Avantia, nós aderimos ao WEPS (Women’s Empowerment Principles) em março de 2019. Fomos a primeira empresa de tecnologia do Porto Digital a fazer parte do movimento. Na época, poucas empresas locais estavam trabalhando esta pauta de maneira mais ativa. Em dezembro de 2019, tínhamos 18% de mulheres em nossa área de desenvolvimento. Hoje, esse número aumentou para 27%. Resolvemos todas as nossas questões relacionadas ao assunto? Não, mas consideramos que cada passo já é um avanço. Ter assumido o compromisso nos fez parar para planejar nossa atuação, sensibilizar e capacitar nossas lideranças para a temática, implementar políticas mais atrativas para as mulheres, envolver os homens na pauta e mensurar números que antes não eram vistos. Leia a entrevista completa na edição 180.1 da Revista Algomais: assine.algomais.com

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“A cúpula militar da ativa tem se mostrado preocupada com a forma de ação de Bolsonaro.”

A democracia brasileira corre perigo? Declarações de duas figuras próximas ao presidente Jair Bolsonaro, feitas na semana passada, levaram muitos brasileiros a fazer essa pergunta. O deputado Daniel Silveira divulgou um vídeo defendo o fechamento do Superior Tribunal Federal e fez apologias ao AI-5. Já o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas lançou um livro no qual conta em detalhes o tuíte que fez em nome do Exército pressionando o Supremo, às vésperas do julgamento de um pedido para evitar a prisão do ex-presidente Lula. Para Ricardo Sennes, economista e doutor em ciência política, porém, não há sinais de um alinhamento dos oficiais da ativa das Forças Armadas com intenções golpistas. Nesta entrevista a Cláudia Santos, ele analisa as consequências dessas declarações, o posicionamento de Bolsonaro e as ações do STF. A prisão de Daniel Silveira pode ser uma limitação da imunidade parlamentar e do uso das mídias digitais pelos políticos? Aqui é necessário separar conteúdo/mérito e forma/procedimento. No conteúdo acho que é bastante defensável que o deputado cruzou a linha do aceitável em termos de atentado contra a ordem democrática. Se sua fala fosse isolada e em tempos de menos tensão institucional, acho que não teria o tratamento que teve. Porém, no contexto atual, foi claramente um chamado à ação dos grupos políticos mais radicais do País contra as instituições. Ademais, ele não é um cidadão qualquer. Ele é um deputado federal, uma autoridade constituída, portanto, com responsabilidades públicas evidentes. Nesse sentido, acho que claramente cometeu um crime contra a ordem democrática e a paz social. No que tange à forma, aos procedimentos, acho que novamente o STF errou. Acho que existem instituições com funções precípuas para abrir inquéritos, fazer acusações e investigações. Acho que seria função dessas instituições, com destaque para a PGR, que poderia iniciar esse processo investigativo e mesmo solicitar prisão preventiva. Acho bastante preocupante a forma pela qual o STF chamou a si esse tipo de autoridade que constitucionalmente não tem. A omissão de instituições como o Congresso em outros casos de ataques ao STF e a apologia à volta do AI 5 – alguns vindos do próprio clã Bolsonaro – incentivam outras pessoas a seguirem esse comportamento? Creio que o deputado cometeu um crime, portanto, não cabe ao Congresso agir no campo criminal ou judicial. Cabe às instâncias judiciais. Ao Congresso caberia tratar de forma exemplar esse tipo de ação. A essência do parlamento é a tolerância, o respeito à Constituição e ao jogo democrático. Todas as ações de membros que atentam contra isso estão fora do decoro e do juramento que seus membros estão obrigados a seguir. O deputado Daniel Silveira claramente atentou contra esses fundamentos e me parece óbvio que deveria ter seu mandato cassado. Declarações como as de Daniel Silveira e do general Villas Bôas – sobre o posicionamento do Alto Comando do Exército em favor da prisão de Lula – colocam em xeque a democracia brasileira? Acho que esses eventos são de ordem bastante distintas. Obviamente nenhuma das declarações contribue para a normalidade democrática no País. Mas são eventos que correm em raias diferentes. As posturas dos militares na ativa e os da reserva têm sido muito diferentes. Até onde acompanho, a postura da cúpula militar da ativa tem se mostrado bastante preocupada com a forma de ação do presidente Bolsonaro e seu grupo. Já deram recados sobre isso. Talvez menos enfáticos do que gostaríamos, mas têm sido dados. O histórico do deputado Daniel é completamente em outro sentido. É uma pessoa claramente perturbada. Sua passagem pela PM do Rio de Janeiro foi completamente atribulada. Recebeu centenas de punições, processos, foi preso várias vezes. Vejo-o como uma figura menor buscando achar um espaço dentro dos grupos mais radicais da base bolsonarista. É grave, mas faz parte de outra dinâmica política que, infelizmente, está presente no País. LEIA A ENTREVISTA COMPLETA NA EDIÇÃO 179.4 DA REVISTA ALGOMAIS: assine.algomais.com

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Yane Marques: “A gente precisa fazer com que as empresas acreditem no atleta como uma vitrine.”

Desde que se mudou de Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, para o Recife, a vida de Yane Marques vinculou-se definitivamente ao esporte. Aos 12 dedicou-se à natação e, anos depois, foi convidada a praticar o pentatlo moderno, uma novidade que abrangia cinco modalidades diferentes: hipismo, esgrima, natação, tiro esportivo e corrida. A partir daí, foi uma carreira vitoriosa com destaque para a conquista do ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e da medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Londres. Carismática, foi escolhida, por votação popular para ser a porta-bandeira da delegação brasileira na cerimônia de abertura da Olimpíada realizada no Brasil em 2016. Mesmo longe dos pódios, Yane continua ligada ao mundo esportivo. Em 2017, aceitou o convite para assumir a Secretaria Executiva de Esportes do Recife e, no mês passado, foi eleita presidente da Comissão dos Atletas do COB (Comitê Olímpico Brasileiro). Nesta entrevista a Cláudia Santos, Yane fala da sua trajetória, dos seus planos nessa nova função e aborda a liberdade dos atletas expressarem seus posicionamentos políticos. Um tema que vem sendo muito debatido desde que a atleta do vôlei de praia Carol Solberg foi indiciada e absolvida, pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, por dizer “Fora, Bolsonaro!”, após uma partida. Como foi sua trajetória de sair de Afogados da Ingazeira e tornar-se campeã de pentatlo moderno? Eu nasci em Afogados e, quando fiz 11 anos, vim morar no Recife. Na escola jogava vôlei, entrei numa escolinha de natação, nadei dos meus 12 aos 19 anos, quando fui convidada para viver uma experiência no pentatlo, uma modalidade que estava recém-chegada no Brasil. A Federação Pernambucana de Pentatlo estava sendo fundada nesse ano, 2003. Aí eu fiz um biatlo, uma prova de natação e corrida, e fui selecionada para viver a experiência nessa modalidade tão diferente e nova para todo mundo. E, quando menos espero, estou imersa, treinando, treinando, treinando e conseguindo melhorar meus índices, conquistando umas coisas bem interessantes e evoluindo tecnicamente. E aí, naturalmente, fui conquistando esse espaço. Você foi eleita para a presidência da Comissão dos Atletas do COB. Quais os planos de sua gestão? Fui eleita agora para a Comissão de Atletas como presidente e tenho a intenção de ser essa interlocução, esse ponto focal entre os atletas e as instituições esportivas, as confederações e o Comitê Olímpico do Brasil. Mas numa perspectiva de aproximação mesmo, de fazer um trabalho de atendimento de demandas, de pleitos, de cobranças também – por que não, né? – de que se cumpram e que se melhorem os estatutos das confederações, para que tudo seja feito sempre com o propósito de fomentar a modalidade, de melhorar as condições de treino dos atletas, para a gente ter sempre, de uma forma justa, melhor representatividade nas competições em todas as modalidades. Está sendo um trabalho muito intenso, muito gratificante e sou muito agradecida pela escolha. Como os atletas têm se preparado para as olimpíadas nestes tempos de pandemia e qual é a expectativa de realização dos Jogos Olímpicos em Tóquio? A preparação dos atletas para a Olimpíada é muito particular. Cada modalidade tem uma característica, tem especificidade, tem uma abertura de treinamento em outros países, outras conseguem treinar bem no Brasil, com toda a estrutura que o COB oferece e suas confederações. Então, de uma forma geral, o que eu posso dizer é que os atletas estão buscando as melhores condições de treinamento, estão preocupados com isso e fazendo esforço para diminuir os danos causados por essa pandemia. Sobre a expectativa para os jogos, na verdade, a torcida é para que realmente aconteçam porque o não acontecimento dos jogos é muito, muito triste para a comunidade esportiva, para os atletas que estão tentando se classificar, para os que já estão classificados, para toda a cadeia que compõe esse segmento. Ao mesmo tempo, a gente que vive o esporte aprende a cumprir regras e entende os impedimentos. Então, se não acontecer, será por um bem maior, para que se poupem vidas e isso, na verdade, é muito mais importante do que tudo. Mas a torcida é grande para que aconteça, principalmente porque, se acontecer, é porque a gente vai estar numa situação estável e mais controlada dessa doença infeliz que está acabando com a vida de tanta gente, de tantas família. Quais os problemas de financiamento ao esporte enfrentados pelos atletas brasileiros e quais seriam as soluções para proporcionar uma melhor estrutura para eles? O que eu posso dizer é que hoje, no Brasil, a gente tem um cenário muito diferente, muito mais feliz, no que se refere a essa questão de aporte financeiro para atleta, do que na época em que eu comecei. Aqui no Recife, por exemplo, a gente tem o Bolsa Atleta Municipal, o Bolsa Atleta Estadual, tem bolsa que contempla treinador, tem também Bolsa Atleta do Governo Federal, da Secretaria Especial do Esporte, tem o Time Brasil do Comitê Olímpico do Brasil, no qual os atletas que se encaixam nos critérios técnicos têm toda a parte de ciência aplicada ao esporte, além de apoio com passagens, hospedagens, articulação com comitês olímpicos internacionais, para fazer treinamento centralizado fora do Brasil. Então, nesse sentido, acho que a gente não está mal, não. Eu fui beneficiada por toda essa cadeia de apoio. Óbvio que a gente precisa pensar na renovação, na base, na iniciação e, talvez, a energia pudesse ser mais direcionada nesse sentido. E acho que está acontecendo aos poucos. Mas o Brasil tem um potencial gigante, tem um material humano absurdo de bom e que precisa ser encontrado, revelado, oportunizado. Há sempre espaço para melhora e eu não tenho dúvida de que a gente precisa incrementar e fazer com que os entes privados acreditem no atleta como uma vitrine. O atleta traz uma história, uma imagem muito positiva, de ser aguerrido, de ser forte, resiliente, resistente, responsável, e tudo isso são atributos que pesam positivamente para a imagem de qualquer empresa. Nesse sentido, acho que a gente precisa, de verdade, intensificar um pouco, fazer com que as

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“Uma vez que os dados foram vazados, é muito difícil retirá-los de circulação.”

O megavazamento de dados de 220 milhões de brasileiros – inclusive de quem já morreu – causou espanto, apreensão e demonstrou o nível de alcance da atuação dos hackers e a vulnerabilidade da segurança digital no País. Para entender as implicações jurídicas, os prejuízos aos quais estamos expostos e de que forma uma pessoa que foi fraudada em razão desse vazamento pode se defender na Justiça, Cláudia Santos conversou com Maria Wanick Sarinho, advogada de proteção de dados e propriedade intelectual do escritório Escobar Advocacia. Ao que tudo indica, segundo a especialista, será quase impossível reverter essa ação e os dados devem ficar expostos de forma definitiva. Maria, que é mestre em direito, com especialidade em contratos pela UFPE, faz um alerta aos empresários sobre a urgência de se adequarem à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). Caso eles enfrentem a ocorrência de incidentes, ataques e vazamentos com relação a dados pessoais, essa situação pode gerar graves prejuízos, perda de negócios e reputação negativa para suas empresas. Como esse vazamento pode ter acontecido? As informações que foram tornadas públicas até o momento falam que houve dois vazamentos: um, com 223 milhões de CPFs e dados como nome, sexo e datas de nascimento, além de alguns dados de veículos e CNPJ, uma parte dos quais está circulando gratuitamente pela internet; Outro, com informações mais detalhadas como telefone, renda, escolaridade, endereço, scores de crédito e até perfis de consumo, está sendo objeto de comercialização ilegal pelos hackers. A Polícia Federal está investigando a origem desses vazamentos e a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) recebeu informações da empresa PSafe, responsável por identificar os vazamentos, e da Serasa Experian, citada como possível fonte do incidente mas que nega ser a fonte dos dados. O grande volume e a diversidade de informações reunidas podem indicar que houve a combinação de diversas fontes de dados diferentes. Qual o tamanho do prejuízo proporcionado por esses vazamentos? É verdade que é impossível reverter essa situação, os dados dos brasileiros foram expostos de forma definitiva? É importante ressaltar que foram vazados dados pessoais de 223 milhões de brasileiros: esse é um número maior do que a população brasileira pois suspeita-se que houve o vazamento também de dados de pessoas falecidas. Essa é uma situação complexa, uma vez que os dados foram vazados, é muito difícil de retirá-los de circulação. Os potenciais prejuízos, diretos e indiretos, são vastos e não dá para calcular no momento. Isso porque é difícil identificar em que situações esses dados serão utilizados de forma ilegítima no futuro. É possível que passem a fazer parte dos bancos de dados de empresas, bancos e outros negócios, que acreditam estar recebendo dados normalmente, mas que estão sofrendo fraude. Isso torna ainda mais difícil diferenciar entre os dados que estão sendo utilizados de forma legítima daqueles que têm origem ilegal. O que pode ser feito com esses dados? A extensão e a variedade dos dados vazados é preocupante. Foram vazados dados difíceis de alterar e que tem grande impacto na vida cotidiana, como número de CPF e nome completo. Esses também são dados relacionados com a identificação pessoal, então alguém pode se passar por você, podem ser abertas contas bancárias, retirados empréstimos, feitas compras online, entre uma variedade de fraudes e golpes possíveis. É possível saber se os dados de uma pessoa foram expostos? Segundo as informações divulgadas até o momento, o vazamento de dados potencialmente afetou toda a população brasileira, então é provável que alguns dos seus dados tenham sido afetados. É preciso ter cuidado ao fazer qualquer consulta a esse respeito. É recomendável evitar sites que pedem mais dados pessoais para supostamente confirmar quais dados seus foram vazados: caso o site peça dados como seu CPF ou data de nascimento, evite o acesso. Além disso, o STF recentemente retirou do ar os sites de checagem mais populares e abriu inquérito para investigar o caso. Recomendo que cada pessoa procure saber mais sobre a segurança da informação em geral e que verifique se um site é realmente legítimo e confiável antes de oferecer seus dados pessoais, em todas as circunstâncias. A ENTREVISTA COMPLETA ESTÁ NA EDIÇÃO 179.2 DA REVISTA ALGOMAIS: assine.algomais.com

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“A realidade da Gripe Espanhola se repete com a politização da Covid-19.”

Uma pandemia se abate sobre o mundo causada por um vírus. No início, integrantes do Governo Federal fazem pouco caso da virulência da infecção, dizendo tratar-se de uma gripezinha benigna. Mas logo a doença se espalha pelo País e no planeta causando 50 milhões de mortes e colocando o sistema hospitalar em colapso. Surgem teorias da conspiração sobre a origem do maligno micro-organismo. Apesar dos cientistas alegarem não haver medicamento para combater a doença, várias pessoas acreditam em tratamentos sem nenhuma comprovação científica. Um resumo da situação da Covid-19 no Brasil? Nada disso, essa foi a realidade da Gripe Espanhola, que chegou pelos portos de cidades brasileiras, como o Recife, em 1918. Para entender melhor esse momento histórico e sua analogia com o momento atual, Cláudia Santos conversou com Alexandre Caetano da Silva, autor da dissertação de mestrado pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Recife, uma cidade doente: a Gripe Espanhola no espaço urbano recifense (1918). Por que a pandemia da Gripe Espanhola teve este nome? A pandemia acontece durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A imprensa dos países que participavam da guerra censurava as notícias sobre a doença. A Espanha não participou do conflito e sua imprensa noticiava livremente a pandemia que, por isso, ficou conhecida como Gripe Espanhola. Mas a sua origem, na verdade, é norte-americana. A epidemia tem início no campo de treinamento militar em Kansas, nos Estados Unidos. Esses militares participam da guerra em 1917 e espalham a doença na Europa e depois no mundo. Porém, assim como hoje há teorias da conspiração afirmando que o novo coronavírus surgiu de um laboratório chinês, na época da Gripe Espanhola, havia o boato de que os alemães, na guerra, engarrafaram o vírus e o jogaram nas praias brasileiras. Como ocorreu a entrada do vírus Influeza A H1N1 causador da gripe Brasil? Foi quando o paquete (embarcação) britânico Demerara que, vindo da Europa no início de setembro de 1918, atracou no Rio de Janeiro no dia 14 daquele mês, já com vários tripulantes enfermos. Essa é a primeira notícia da presença da Gripe Espanhola no Brasil. Como foi a atuação de Carlos Seidl, diretor geral da Saúde Pública (espécie de Ministério da Saúde à época), no combate e prevenção da pandemia no País? É verdade que ele se referiu à doença como “uma gripe de caráter benigno” e num primeiro momento se recusou a propor a quarentena? Inicialmente a Gripe Espanhola foi tratada de uma forma geral como uma gripezinha, mas com o aumento dos casos e a situação piorando com o crescimento constante do número de óbitos em todo o País, o Estado começou a tomar medidas como o isolamento social e o fechamento do comércio e outros estabelecimentos. Carlos Seidl sai da Direção em 1918 e quem assume é o médico e biólogo renomado Carlos Chagas. Você poderia fazer uma comparação entre a atuação dos jornais na época da Gripe Espanhola e as redes sociais na atual pandemia? A doença só existe quando as pessoas acreditam nela. Em 1918, a Gripe foi noticiada pelos jornais. Em Pernambuco, o Diario de Pernambuco representava a situação do governo de Manoel Borba e o jornal A Província representava a oposição, mas também havia outros. As notícias sobre a Gripe Espanhola eram dadas de uma forma mais direta e clara pelo jornal A Província, por representar a oposição ao governo. Só depois de alguns dias, em função da calamidade que o Estado passava, é que o Diario de Pernambuco começou a divulgar e aceitar a realidade que a Gripe colocava à sociedade. Hoje, com a Covid-19, a realidade se repete no que toca à questão da politização da doença, por meio das redes sociais e de instituições que desacreditam na pandemia. Dessa forma, colocam parte da sociedade em conflito, por acreditarem nas lideranças dessas instituições. Como a Gripe Espanhola assolou o Recife, qual o número de mortos e infectados, houve colapso do atendimento hospitalar? A Gripe Espanhola entra no Recife através do Porto da cidade. As primeiras notícias da doença foram de 25 de setembro de 1918, afirmando que ela chegou por intermédio do vapor Piauhy, vindo de Dacar (Senegal, África) com dois doentes abordo, no dia 24 de setembro. Não se tem um número exato de mortes provocadas pela Gripe Espanhola, mas de acordo com o relatório do diretor de Higiene do Estado Dr. Octávio de Freitas, no Recife morreram 2.500 pessoas. A cidade não possuía um instituto de medicina legal e nem uma estrutura de hospitais públicos. Existiam dois hospitais de referência no período, o Santa Águeda e o Pedro II. Houve, sim, um colapso no atendimento hospitalar, em que as farmácias serviram como ponto de ajuda aos infectados no combate à epidemia, oferecendo medicamentos, mas, na verdade, não havia um antídoto contra o vírus. Sem atendimento, as pessoas morriam nas ruas, as funerárias trabalhavam 24 horas por dia fabricando caixões. LEIA A ENTREVISTA COMPLETA NA EDIÇÃO 179.1 DA REVISTA ALGOMAIS: assine.algomais.com

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“Diante da falta de memória do povo, uma saída que podemos oferecer é o jornalismo e a literatura.”

“Um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la”. A frase do filósofo Edmund Burke se encaixa bem com a falta de memória ou o desconhecimento dos brasileiros so bre fatos passados. Uma realidade perigosa que chega ao extremo de haver pes soas pedindo a volta da ditadura militar. Daí a importância de livros como Queridos Rivais, do jornalista Sérgio Montenegro. A obra aborda a União por Pernambuco, uma aliança entre PMDB e PFL ocorrida nos anos 90 que parecia impensável na época. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Sérgio relembra esse período da política pernam bucana e do País, analisa as consequências dessa coligação e fala um pouco sobre a importância de revisitar a história. A aliança entre PMDB e PDS, que permitiu eleger, por via indireta, Tancredo Neves presidente da República, abriu ca minho para outras alianças como a União por Pernambuco? Com certeza, sim. Tancredo Neves, na época, era do PMDB, José Sarney havia presidido a Arena e, com a volta do pluripar tidarismo, migrou para o PDS. Aquela aliança só aconteceu por causa da rebeldia de alguns pedessistas – todos apoiadores do regime militar – que divergiram da candidatura de Paulo Maluf pelo partido. Entendiam que Maluf tinha a simpatia da caserna e poderia representar uma continuidade do regime, indeseja da naquele momento em que se negociava a redemocratização. Em princípio, eles defendiam que o partido lançasse a candida tura do ex-ministro Mário Andreazza, mas foram derrotados. Então, saíram do PDS e formaram a Frente Liberal, que não era partido ainda, para apoiar Tancredo Neves. A condição imposta ao PMDB para esse apoio foi a composição da chapa, com a indicação do vice: José Sarney. E assim foi feito o acordo. No mesmo ano da eleição de Tancredo/Sarney, que aconteceu em janeiro de 1985, houve a disputa para prefeitos de capitais. No Recife, havia uma disputa interna no PMDB entre dois deputados federais pela indicação como candidato: Jarbas Vasconcelos e Sérgio Murilo Santa Cruz, que se articulou com o PFL local – então já registrado como partido – formando uma espécie de reedição da aliança feita em torno de Tancredo, e conseguiu a indicação. Jarbas, então, saiu do PMDB para o PSB, numa manobra comandada por Miguel Arraes, que via no aliado um importante reforço no Recife para a sua própria candidatura a governador no ano seguinte. Jarbas venceu a eleição, ironicamente derrotando a aliança PMDB-PFL. Menos de 10 anos depois, ele mesmo articulava uma aliança com os pefelistas no Estado. Na sua opinião, quais as consequências que a aliança PMDB-PFL trouxe para Pernambuco? A principal delas foi a eleição – e reeleição – de Jarbas Vas concelos como governador, mantendo o comando do Estado por mais ou menos uma década, embora quando da negociação da aliança tenha havido falas mais otimistas de que aquele seria um projeto de poder para no mínimo 20 anos. A aliança também garantiu a eleição de Roberto Magalhães para a Prefeitura do Recife em 1996, e a vitória de vários prefeitos no Estado liga dos aos dois partidos, o que reforçou muito a gestão de Jarbas. Em termos administrativos, a aliança promoveu avanços em Pernambuco, como a duplicação da BR 232 – mesmo tendo que ser feita com dinheiro estadual, embora fosse uma rodovia fe deral – e ajudou a interiorizar vários vários investimentos que geraram  desenvolvimento nos municípios mais distantes. Também ajudou a estruturar o Complexo de Suape e melhorou a fruticultura no São Francisco, onde a família Coelho, de maioria pefelista, tinha e tem sua principal atividade econômica. Mas, no livro Queridos Rivais, contesto a justificativa dos idealizadores da aliança de que ela havia sido feita com a finalidade de desenvolver o Estado. Ela foi feita com um objetivo de derrotar Miguel Arraes e seu grupo político, adversário de Jarbas Vasconcelos e dos pefelistas, e tomar deles o comando do Estado. Jarbas tinha o projeto político de ser governador, mas seu partido estava enfraquecido em Pernambuco, principalmente no interior, depois da derrota sofrida em 1990, quando o PFL elegeu Joaquim Francisco governador, derrotando o próprio Jarbas. Mas em 1992, Jarbas deu a volta por cima e se elegeu prefeito do Recife com facilidade, já pensando na disputa pelo governo dois anos depois. O PMDB tinha um nome para 1994, o de Jarbas. Mas não tinha bases políticas suficientes. Já o PFL, dispunha dessas bases com folga, mas não tinha um candidato forte para enfrentar Arraes, candidatíssimo pelo PSB. A aliança era, então, uma dobradinha perfeita. Mas, quando as eleições para governador se aproximaram, as pesquisas indicavam que seria muito difícil vencer Arraes. Jarbas desistiu de disputar e apoiou Gustavo Krause, do PFL. Ele sabia que se sofresse uma derrota para Arraes em 94 não teria mais chances de chegar ao Governo do Estado. Bolsonaro se elegeu com um discurso de fazer “a nova política”, sem se aliar a partidos que faziam o que ele chamava de “velha política”. Mas acabou aliando-se ao Centrão. A política brasileira está fadada às alianças? Jair Bolsonaro era um deputado federal com sete mandatos quando foi candidato a presidente em 2018. Jamais poderia se apresentar como “novo”. Mas seus marqueteiros souberam explorar um sentimento de desilusão, sobretudo depois que o PT, apesar de dois governos bem-sucedidos e muito bem aprovados de Lula, passou a ser alvo de denúncias de corrupção. Bolsonaro, assumidamente de direita, soube explorar esse antagonismo, responsabilizando as esquerdas por tudo de ruim que acontecia no País, e prometendo mudar a vida das pessoas, com um discurso persecutório e excludente, que usava a polarização e o ódio político como combustível, aditivado ainda pelo uso de fake news. Em 2018, ele não tinha o apoio do Centrão, que preferia nomes menos radicais. A maioria do bloco ficou com o tucano Geraldo Alckmin, mas houve apoios ao banqueiro Henrique Meirelles, do PMDB, a Álvaro Dias, do Podemos, e até a João Amoêdo, do Partido Novo. Na época, confortável no seu favoritismo, Bolsonaro dizia que o Centrão era “o que há de pior

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"Uma previsão para que todos tenham se vacinados seria 1º semestre de 2022"

Quando as imagens da enfermeira Mônica Calazans recebendo a dose pioneira da vacina contra a Covid-19 espalharam-se pelas mídias do País, um sentimento de esperança invadiu os brasileiros. Mas algumas dúvidas começaram a surgir: o que significa uma eficácia do imunizante de 50%? Quem já foi contaminado pelo coronavírus deve se vacinar? E as grávidas? Quando poderemos deixar de usar máscaras e de adotar o distanciamento social? Para responder a essas indagações, Cláudia Santos conversou com o microbiologista Luiz Gustavo de Almeida, que é PhD em microbiologia pelo ICB-USP (Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo), diretor no Brasil do festival internacional de divulgação científica Pint of Science – Um Brinde à Ciência e coordenador dos projetos educacionais do Instituto Questão de Ciência. Existem muitas informações nas redes sociais alertando para a insegurança dessas vacinas. O que comprova a segurança desses imunizantes? Essas informações que circulam nas redes sociais, principalmente no WhatsApp, são para assustar a população, baseadas puramente em teorias conspiratórias. O papel do governo federal deveria ser garantir a segurança dessas vacinas, garantir que elas passaram por um processo extremamente criterioso para avaliação delas, como foi feito e como foi respaldado pelo aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Nossa agência regulatória não deixaria passar qualquer coisa que fosse fazer qualquer tipo de mal para a sociedade brasileira. Essas informações são baseadas muito em medos, em histórias antigas, como a de que vacinas causam autismo, que já foram duramente rechaçadas e desmentidas por diversas vezes. Mas isso tudo volta à tona com a facilidade dessa comunicação nas redes sociais. A comprovação da segurança desse imunizante já foi atestada. As primeiras reações adversas, que ocorrem logo nas primeiras horas, são acompanhadas quando acontecem. O que verificamos com a Coronavac são apenas aquelas mais comuns: dor no local da aplicação da vacina, um pouco de inchaço, um pouco de febre. Mas isso significa que seu sistema imunológico está funcionando, está combatendo o agente que é o vírus inativado dentro do seu corpo. Uma característica do sistema imunológico é aumentar a temperatura exatamente para reduzir a replicação do vírus. Então, toda essa segurança foi testada em mais de 10 mil voluntários aqui no Brasil e mais outros 10 mil na Turquia. Ela foi testada também na China. É uma vacina extremamente segura, porque também possui uma tecnologia que não é nova, usamos há 100 anos para produzir vacinas. Tudo isso, além do respaldo técnico de pessoas que dedicaram a vida inteira para estudar sobre vacinas, faz com que a gente acredite, sim, que é uma vacina extremamente segura. Nós não iríamos aprovar uma vacina que oferecesse maior risco que a pandemia já vem oferecendo. É uma vacina segura e, claro, vamos acompanhar essas pessoas que estão sendo vacinadas. Caso haja qualquer alerta de reação adversa, vamos observar se foi provocada pela vacina e esclarecer a população de uma forma muito clara. Importante a gente saber isso, porque se houver algum tipo de reação num grupo determinado de pessoas, é melhor não vacinar essas pessoas. Daí, a importância da vacinação coletiva porque vamos conseguir proteger, inclusive, essas pessoas que não podem tomar a vacina. Então, ela é segura para a população em geral e a enorme maioria da população deve tomar essa vacina. Qual o percentual da população que precisa ser vacinado para frear o avanço da pandemia no País? Tendo em vista as experiências recentes observadas em outros surtos, outras epidemias e até outras pandemias, vamos começar a ver os efeitos da diminuição de pessoas adoecendo e morrendo, a partir do momento em que 70% população for imunizada. Em relação à Coronavac, para atingirmos a tão sonhada imunidade de rebanho, vamos ter que vacinar 99% da população. Para fazer esse cálculo, levamos em conta a eficácia das vacinas e também a taxa de replicação base do vírus, ou seja, quanto que uma pessoa infectada pode, em média, infectar outras suscetíveis. Sabemos que no caso do coronavírus, uma pessoa infectada pode transmitir até para duas outras suscetíveis ao vírus. Então, esse é o número utilizado nesse cálculo junto com a eficácia da vacina. Depois de vacinada, a pessoa tem que manter as medidas de prevenção contra a Covid-19? Quando poderemos voltar a frequentar aglomerações? Sim, depois de vacinados temos que continuar fazendo o distanciamento social, usar máscaras e lavar as mãos. A vacina não é uma pílula mágica, de efeito imediato, em que, assim que você for vacinado terá uma proteção para não transmitir o vírus. Não, você vai, sim, ter um risco menor de ser contaminado e pegar a doença, mas você, ainda pode, sim, transmitir esse vírus para uma outra pessoa que ainda não foi imunizada. É muito importante deixar claro isso. Vamos diminuir a gravidade da doença, não é a transmissão neste primeiro momento que vamos evitar. Provavelmente, as vacinas podem ter essa capacidade, mas a ciência ainda não respondeu a essa pergunta. Vamos continuar monitorando os casos, continuar os estudos para ver se as vacinas são tão boas a ponto de neutralizar, inclusive, a transmissão do vírus. Poderemos voltar a frequentar aglomerações daqui a um ou dois anos, quando conseguirmos, realmente, observar que o número de casos e a gravidade deles estão diminuindo. Assim, a Covid-19 passará a ser uma gripinha, um resfriado comum que a gente consiga tratar em casa ou até num atendimento simples ambulatorial. É isso que a gente quer: que as pessoas não morram, e menos gente sendo internada com Covid-19 grave. Quem foi contaminado precisa se vacinar? Por quê? Quem já foi contaminado deve, sim, se vacinar. O que a gente pode fazer é remanejar essas pessoas que já foram contaminadas para, talvez, o fim da fila. Mas ninguém vai ficar monitorando, perguntando se você já foi vacinado ou não. Isso acontece porque as vacinas oferecem um treinamento muito melhor para o seu sistema imunológico do que quando você pega o vírus selvagem. O vírus que está na natureza não causa só a Covid-19, ele atrapalha todo o seu sistema

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Juliana Notari: “A arte tem que criar perguntas e reflexões.”

A imagem de uma grande vulva, em tom vermelho intenso, encravada no terreno do Parque Artístico Botânico da Usina de Arte foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais do País este mês e reverberou até na mídia internacional. A obra Diva, da artista plástica recifense Juliana Notari, causou controvérsia num amplo espectro ideológico de pessoas: desde conservadores, até militantes que lutam contra a transfobia, além do movimento negro. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Juliana analisa essas críticas, defende a força da obra, que segundo ela vai além da representação de uma vulva, mas expõe as feridas que as mulheres e a natureza sofrem na sociedade patriarcal. A artista comenta também a sua trajetória e a sua concepção de que a arte deve provocar as pessoas a refletirem. Por que a obra Diva causa tantas controvérsias nas redes sociais, provenientes de pessoas da direita e da esquerda? Eu acho que é porque o que está colocado na obra é a representação de uma parte do corpo da mulher que, ao longo da história, nestes dois mil anos de patriarcado, sempre foi um tabu, sempre foi reprimida. A vulva é o lugar onde a mulher sente prazer, não tem uma função reprodutiva, como a vagina, o canal vaginal, onde passa o espermatozoide.A repressão começa pela linguagem, até o nome vulva foi deixado de ser falado, porque chamar uma vulva de vagina, é a mesma coisa que chamar pênis de uretra. Há um silenciamento do corpo da mulher, que vem ao longo dos séculos, e a mulher precisa ser vista como a recatada e do lar, a que está em casa, fazendo o trabalho da reprodução, cuidando dos filhos, que não tem o trabalho reconhecido. Grande parte desses ataques que, se partiram da direita, é proveniente de pessoas que pensam dessa forma. Eu sabia a todo momento que a obra iria provocar críticas, mas não dessa envergadura que foi. Mas antes de tudo, é preciso estabelecer que Diva não pode ser reduzida a uma vulva. Diva é uma grande ferida. Caso ela fosse apenas uma vulva, eu teria feito os grandes lábios, o clitóris. Essa dimensão traumática, expressa em sua forma de ferida aberta, é a mais importante para mim, fica mais agressiva esteticamente na minha obra. A obra não centra o discurso na questão genital, mas abre feridas históricas, coloniais, que estão para além das questões de gênero. Há também uma discussão e questionamentos das feminilidades, da violência contra os corpos, incluindo o da Terra, na nossa sociedade patriarcal e capitalista. As críticas da esquerda que foram em torno da questão racial e de classe social surgiram a partir de uma foto, postada por mim no Facebook e no Instagram, em que é mostrado o processo de construção da obra. Nela, eu, a artista, uma mulher branca, apareço em primeiro plano e os trabalhadores – na maioria negros – trabalham na obra ao fundo. A foto é um retrato da nossa sociedade brasileira. A arte não está apartada da sociedade, ela reflete a sociedade e a arte também é um lugar muito elitizado. Mesmo entendendo que, enquanto imagem, ela possa endossar o racismo estrutural que molda o Brasil desde sua colonização, ela  também denuncia as feridas coloniais que persistem e nos traumatizam até os dias atuais. Esses sintomas históricos não são causados apenas por mim, mas são responsabilidade de todos nós que deixamos essas feridas históricas inflamarem. Feridas como a escravidão, sexismo, o extermínio dos povos indígenas e a ditadura militar não foram tratadas e, por isso, o Brasil segue doente. Os trabalhadores da construção civil contratados pelo engenheiro para construir Diva são sintomas dessas feridas, são descendentes de escravizados negros, de indígenas, como a grande maioria dos trabalhadores urbanos e rurais do Brasil. Então, é uma questão estrutural. Como a gente sabe, os escravos não tiveram acesso à terra, à reparação, à educação, ou seja, não tiveram acesso à sociedade. Foram apartados; foram para as periferias, os subúrbios, as favelas. A outra crítica partiu de mulheres trans que acham que uma vulva reforça o binarismo, a ideia de que só existem dois sexos. Na verdade, não é nada disso, acho que existem várias sexualidades, vários femininos e que todo mundo pode falar. A questão é que elas também têm que ocupar espaço de fala, de colocar a arte delas nos espaços de arte. Aí, são necessárias políticas públicas de inclusão. A todo momento eu não quero anular, eu quero abranger e também quero defender meu direito de falar. Eu sou uma mulher que acha que eu posso falar de uma parte do meu corpo. Eu sou artista, eu sou livre para falar, isso não quer dizer que eu vou anular outras formas de viver a sexualidade, muito pelo contrário, acho que tem que ser multi. Você explicou que a obra busca questionar a relação entre a natureza e a cultura numa sociedade falocêntrica e antropocêntrica. Você poderia detalhar essa ideia? Falocêntrica é essa questão do patriarcado. Vivemos dois milênios de patriarcado, que é justamente essa questão de o homem ter o protagonismo, que ocupa o poder, de usar os corpos dos negros, das mulheres, dos indígenas, reprimindo-os para transformá-los em subalternos a esse poder. É, principalmente, o macho, hétero, branco, que é esse homem, símbolo desse patriarcado, que acha que está no topo do poder e se acha superior e que os outros, todos os diferentes, precisam ser seus serviçais. O sentido antropocêntrico está relacionado à espécie humana em geral (homens e mulheres), que se acha acima de todas as espécies, que tem o direito de desmatar, de matar os animais, de remover montanhas e “comer” a terra, por meio do extrativismo de que o consumismo necessita para poder mover a máquina. A espécie humana se acha o centro da Terra e está acabando com tudo. Então, essa separação, natureza e cultura, em que o homem que se coloca acima da natureza com sua cultura, é que faz com que o antropocentrismo seja uma praga que está nos levando

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