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“Quando, no fim de ano, nos sentimos angustiados, isso nos impulsiona a refletir e agir para mudar a angústia”

Psiquiatra Amaury Cantilino analisa os motivos que levam muitas pessoas a se sentirem melancólicas durante este período de festas e afirma que a tristeza pode ser o gatilho para fazer mudanças e projetar uma vida que faça mais sentido e tenha propósito. Passado o Natal, quando as famílias alegremente se confraternizaram, chega a hora do Réveillon, um momento de comemorar as conquistas realizadas no ano que passou. Essa tradição festiva, porém, não é vivida com um sentimento de felicidade por muitas pessoas que se sentem melancólicas durante este período de festas. O psiquiatra Amaury Cantilino conversou com Cláudia Santos e Rafael Dantas sobre os motivos que fazem emergir esses sentimentos, agravados pela influência das redes sociais. Cantilino, que foi presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria e é preceptor da Residência em Psiquiatria do Hospital das Clínicas da UFPE, salienta que a tristeza aflorada pode ser uma oportunidade para a autorreflexão, para promover mudanças e engatar um projeto para viver melhor e com propósito. E nada como o início do ano, época em que se tem a sensação de um recomeço e de fazer novos planos para realizar essa transformação. Fim de ano é momento de festas e confraternizações mas algumas pessoas tendem a ficar melancólicas neste período. Por que isso acontece?  Inúmeras situações podem causar esse tipo de sentimento, a principal é que este período remonta ao final de um ciclo das oportunidades. Quando o tempo vai acabando percebemos que boa parte do que gostaríamos de ter feito, não fizemos ainda. As situações existenciais que gostaríamos de ter mudado, não mudamos. Algumas pessoas sentem-se mal por causa disso.  Outra situação é que, nesta época, as pessoas começam a se conectar mais. Vivemos num momento recheado de conexões de trabalho ou virtuais, geralmente deixamos de lado conexões com amigos e familiares, e, quando chega o fim do ano, é que lembramos dessas conexões mais profundas. Muita gente começa a se perguntar: quando não há o corre do trabalho, quem fica? Com quem vou confraternizar? Quem vou encontrar no Natal?  Além disso, o Natal é simbólico porque, ao pensar nessas relações com parentes e amigos, muitas vezes retomamos mágoas, angústias, relações mal resolvidas do passado, encontros com pessoas mais invasivas que tocam em assuntos inconvenientes. Também há situações familiares que podem ser potencialmente tensas, ou quando a pessoa não tem essas relações ou quando percebe a falta de um ente querido que outrora fizera parte do Natal dela. Atualmente as famílias estão cada vez menores, consequentemente temos que cuidar cada vez mais dos poucos familiares que restam para que tenhamos um fim de ano junto às pessoas que gostam da gente. Além disso, a polarização política que vivenciamos também tem provocado fissuras nas relações. Até que ponto o atual contexto social, com pressões por resultados, contribui para o entristecimento?  Contribui bastante, principalmente devido à comparação nas redes sociais digitais. É quando meus resultados são baseados nos resultados dos outros, seja em termos de lazer, sociais, conquistas de trabalho. Hoje, comparar-se com o outro ficou mais fácil. Infelizmente as redes digitais não são parâmetros exatos, as pessoas sempre postam o que há de melhor nas suas vidas. Mas é impossível nossa cabeça detectar facilmente esse viés.  Essa pressão é, muitas vezes, colocada pela sociedade mas não é infrequente que seja colocada por nós mesmos. Na psicologia, há uma área chamada estudo do perfeccionismo. São pessoas que colocam padrões muito altos de objetivos e propósitos e ficam frustradas quando não os atinge. Ou seja, às vezes não é a sociedade, é a própria pessoa que se cobra. Há também o perfeccionismo prescrito socialmente: é o que a pessoa imagina que a sociedade espera dela. Ela fica sempre correndo atrás de algo para ter determinada reputação, importância social ou bens para mostrar à sociedade, para ser incluída em determinados grupos.  Há também o perfeccionismo heterodirigido, quando somos exigentes com as pessoas que nos são próximas e podemos desgastar as relações com essas pessoas queridas, sejam familiares, amigos, colegas de trabalho ou funcionários. Então, a pressão é global. Além da sociedade, envolve, sobretudo, o indivíduo que às vezes não se contenta em criar regras razoáveis para si, sem precisar atender às prescrições que ele imagina que a sociedade tem em relação a ele. O livro A Sociedade do Cansaço aborda essa questão da pressão interna, em que a própria pessoa é quem cobra de si mesma o perfeccionismo, o alto desempenho.  Há casos de estresse pelo aumento da carga de trabalho no fim de ano para algumas profissões, como as do comércio, e há também os profissionais que param para o recesso, mas precisam correr para adiantar o trabalho e evitar que as coisas fiquem pendentes. O que essas pessoas podem fazer para evitar situações como Burnout?  A sociedade valoriza muito a produção, isso vem acontecendo há cerca de 30 anos e intensificou-se recentemente. Estamos inseridos na cultura do quanto mais eu faço, mais valor eu tenho. E a pessoa passa a ocupar seu tempo em prol de um checklist de tarefas a exercer e às vezes falta espaço para viver de fato. O Burnout é uma realidade, por mais que gostemos de algo, aquilo começa a enjoar quando fazemos em excesso.  Mesmo que você goste muito do seu trabalho, que fique realizado com suas produções, é preciso haver espaços vazios para reflexão e descanso. E precisamos criar mecanismos para ter tempos inegociáveis na semana para fazer atividades que não vão estar à venda. Esse tempo não é de produção. Ou seja, a pessoa precisa separar um tempo para as coisas que valoriza. Se você valoriza o encontro familiar, encontro social, um momento de meditação, precisa reservar esses espaços na semana. Porque as demandas de trabalho, hoje em dia, parecem que são infindáveis.  Se você for uma pessoa responsável, que sempre se coloca à disposição, não vai faltar demanda. Então, necessariamente, é preciso exercitar o “não”. Talvez seja uma das palavras mais difíceis de serem ditas. Parece que o “sim” está pronto quando alguém nos

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Fernando Jordao

“A forma como está sendo feita a retomada das obras da Transnordestina vai prejudicar Suape”

Ferroviário e professor de Engenharia Civil da UFPE, Fernando Jordão explica que o projeto desenvolvido pela concessionária da ferrovia apresenta aspectos técnicos que tornam o porto pernambucano menos competitivo do que Pecém. A retomada do trecho Salgueiro-Suape da Transnordestina – que era para ser uma boa notícia – configurou-se num certo sentimento de frustração para os pernambucanos. Os motivos são algumas questões técnicas explicadas didaticamente nesta entrevista concedida pelo engenheiro e professor do Departamento de Engenharia Civil da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Fernando Jordão.  Com quase 30 anos de experiência como profissional da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), Jordão destaca dois aspectos que tornam o trajeto da ferrovia até Suape menos competitivo do que a conexão com Porto de Pecém, no Ceará.  Um deles refere-se à adoção desnecessária de uma locomotiva extra em 88 km dos 540 km do trecho Salgueiro-Suape. Denominada helper, é utilizada para auxiliar o trem em terrenos íngremes e encarece o custo do transporte de carga. Suape também está em desvantagem em relação a Pecém por ter sido adotada unicamente a bitola (distância entre os trilhos) larga – que mede 1,60 m – no trecho entre Salgueiro e Joaquim Nabuco da ferrovia. Quando se transporta carga de baixa densidade, como o gesso, por exemplo, essa bitola acarreta num custo maior do que a chamada bitola métrica (de 1 m). Ao passo que Pecém conta com a bitola mista: possui a larga para transportar minério de ferro e a métrica, para cargas menos densas. Fernando Jordão afirma que a Infra S.A. – empresa estatal que assumiu a construção do trecho Salgueiro-Suape, depois da desistência da concessionária TLSA – precisa repactuar o projeto com o porto pernambucano para evitar prejuízos futuros. Confira detalhes de mais esse capítulo da “novela” da Transnordestina, cujo enredo se arrasta por quase duas décadas. Além de professor de Transportes, você também atuou na RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.). A Transnordestina é um projeto pós-privatização do sistema ferroviário brasileiro. Você chegou a conhecer o projeto? Tem acompanhado o desenrolar da obra? Sim, além de professor, sou ferroviário e me aposentei como engenheiro da RFFSA e acompanho o projeto chamado Transnordestina ou Nova Transnordestina desde seu lançamento e tenho me informado do andamento da obra na medida do possível. Permita-me esclarecer que o nome Transnordestina, cujo prefixo latino “trans” tem acepção de “através de”, sugere a condição adequada para que algo se movimente através da região nordestina.  Esse termo foi moldado para um projeto da década de 1980, criteriosamente estudado pelo Geipot, órgão de planejamento dos transportes do Governo Federal, que indicava haver um grande benefício para a região central do Nordeste caso se conectasse três pontas de linhas: Petrolina, Salgueiro e Missão Velha (CE), de modo a promover o encurtamento de trajetos ferroviários entre as capitais e portos de toda região nordestina.  Por muitos anos esse projeto foi entendido como a solução logística de cargas do Nordeste. Com a privatização da malha, o concessionário privado (a empresa TLSA) entendeu ser mais viável abandonar a malha centenária em bitola métrica (medida que corresponde a 1 metro de distância entre os trilhos) e construir uma ferrovia com 1.753 quilômetros de extensão em bitola larga (1,6 metro) e mista (com as duas medidas), começando em Eliseu Martins, no Piauí, se bifurcando em Salgueiro, para alcançar dois dos maiores portos da região, Suape e Pecém.  E assim nasceu a Nova Transnordestina ou apenas Transnordestina, objeto de nossa entrevista.  Pessoalmente acho o nome Transnordestina mais apropriado para um projeto que trazia mais benefício para a região central do Nordeste do que ser usado para denominar uma única linha que poderá tornar-se apenas uma ligação entre uma mina de minério de ferro e um terminal portuário. Você disse que o concessionário entendeu ser mais viável construir uma nova ferrovia. Você conhece algum estudo de viabilidade dessa obra? Não conheço. Se foi elaborado algum estudo de viabilidade, houve divulgação restrita, apenas para os investidores. Diga-se de passagem, que nem mesmo o relatório que teria embasado a devolução e um pedido de ressarcimento de valores referente à execução parcial da obra do trecho Salgueiro-Porto de Suape foi dado conhecer ao público, mesmo tratando-se de obra de infraestrutura de impacto econômico regional e com participação de recursos financeiros públicos. Desconheço tais estudos, embora pela magnitude dos valores acho que existam, que tenham sido elaborados. A devolução e o pedido de ressarcimento a que me referi foi um fato que ocorreu há cerca de três anos e que estarreceu a todos pernambucanos. O concessionário solicitou ao Governo Federal a retirada da Transnordestina do trecho já em obras que fazia a conexão de Salgueiro até o Porto de Suape, e convenceu o Governo Federal de que esse trajeto era economicamente inviável. O governo aceitou o pedido, assinou e publicou o termo aditivo ao contrato consolidando a devolução.  Entretanto, diante da forte reação da bancada legislativa estadual e federal de Pernambuco, entidades da sociedade civil e Governo Federal, para não prejudicar Suape, autorizou a empresa estatal Infra S. A. a retomar os cerca de 360 quilômetros restantes da obra até o Porto de Suape, mas é justo esse ponto que questionamos. Pernambuco agradece a retomada das obras, mas da forma certa. Da forma como está sendo feita, sem dúvida, vai prejudicar o Porto de Suape. A Infra S.A. deve sentar-se com o pessoal de Suape e repactuar o projeto. Quando você diz que a obra não está sendo retomada da forma certa está se referindo às diferentes dimensões das bitolas dos trilhos nos trechos do Piauí até Pecém e de Salgueiro até Suape? Você poderia explicar essas diferenças e por que elas prejudicam o Porto de Suape? Vamos lá! Essa questão de bitola nas ferrovias nos países europeus e nos Estados Unidos está devidamente pacificada, seus técnicos e representantes se reuniram (em 1907, no caso europeu) e resolveram adotar um padrão para todas as ferrovias, é a chamada bitola universal, com largura da guia de 1,435 metro. No Brasil, onde não se definiu padrão,

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“2026 será o Ano Cultural Brasil-China e uma ótima oportunidade de aproximação de Pernambuco com os chineses”

Professor da FGV-Rio, Evandro Carvalho fala do evento a ser realizado no Recife, no ano que vem, que visa estimular a aproximação do País com o Gigante Asiático. Afirma que Pernambuco tem uma relação “deficiente” com a China, ao contrário de alguns estados do Nordeste. Ele também analisou o poder do Brics e a relação conflituosa de Trump com o Brasil e o país de Xi Jinping. Berço da primeira República do Brasil e com uma forte cultura que remonta à sua história, Pernambuco, segundo o Evandro Carvalho, professor de Direito da FGV-Rio, apresenta caractrerísticas que facilitariam uma relação econômica mais próxima com a China. “Na filosofia do Tao há uma passagem que diz algo como ‘você olha para a mãe, saberá como são os seus filhos’, ou seja, conhecer o passado é se prevenir contra danos no presente. Isso está muito presente na cultura chinesa, essa valorização da origem das coisas.  Os chineses trabalham muito a questão da história”, constata. Mas Pernambuco também tem um porto moderno e parques tecnológicos que interessam aos chineses. Porém, as relações comerciais com o Gigante Asiático ainda são tímidas e muitas vezes realizadas por intermédio de entidades de São Paulo. “Mas alguns estados nordestinos estabeleceram uma relação direta com os chineses”, alerta o professor que está trazendo para o Estado em 2026 – o Ano Cultural Brasil-China – um evento da revista China Today, que visa promover essa aproximação. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Evandro Carvalho – que também é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense e da Cátedra Wutong do College of Sinology and Chinese Studies da Universidade de Língua e Cultura de Pequim – fala  da relação de Pernambuco com os chineses. Também  analisa o embate de Donald Trump com o Brasil e o país de Xi Jinping e defende uma institucionalização do Brics. Alguns analistas dizem que Trump decretou a maior tarifação para o Brasil para servir de exemplo, como um recado para a China. Você compartilha desta análise? Diante da ascensão chinesa, Donald Trump quer fortalecer a economia dos EUA. É uma tentativa de conter a China para que ela não se torne a maior economia do mundo e isso possa gerar transformação nas relações de poder do sistema internacional e nos padrões de conduta, valores e visões. A China é o maior parceiro comercial de quase 140 países e tem uma política externa de investimento cada vez mais expansiva. Então, essa é a primeira preocupação de Trump.  Além disso, o método dele para que os países considerem os EUA como principal parceiro é agressivo e antipático. Ele prefere negociações bilaterais, que são sempre muito difíceis. Tem pavor ao multilateralismo e, ao invés de buscar a via diplomática, força uma negociação desejando que a outra parte já inicie de joelhos.  Os países que resistem a isso tornam essa negociação mais dura e ele não tem paciência com esse “jogo de xadrez” mais complexo com figuras como Putin, Xi Jinping e Lula.  Já a Europa, teve um comportamento de submissão às condições estabelecidas por Trump. É um caminho errado porque ele respeita quem o desafia. A presença chinesa na América Latina é outro problema para os EUA por várias razões, incluindo, indiretamente, razões militares. Diante do risco de conflitos entre grandes potências mundiais e se os EUA conseguirem renovar a doutrina Monroe, de América para os americanos, terão recursos disponíveis para aguentar uma guerra, porque terão uma área com terras raras, minérios, petróleo e alimentos.   A presença chinesa gera desconforto e impõe limites aos EUA. Outro fator é o apoio de Trump à expansão da extrema-direita. Bolsonaro chegou a dizer que, se caísse a proibição da sua inelegibilidade e ele fosse novamente presidente, tiraria o Brasil do Brics. É como se dissesse: “Se eu for protegido, lhe entrego tudo que você quer”. Isso era música aos ouvidos do Trump, mas ninguém contava com a capacidade do Lula de lidar com essa situação.  Nesse contexto, qual o papel do Brics?  Com a expansão recente, incluindo Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e Indonésia, o Brics amplia sua legitimidade, tanto do ponto de vista populacional, quanto econômico. O PIB global que esse grupo representa já era maior que o do G5 e agora é maior que o do G7. Mas não é apenas um grupo de países visando acordos econômicos. Há uma agenda reformista que distingue o Brics de qualquer outro acordo ou agrupamento de países mais voltados às questões de parcerias econômicas.  Quando falamos em reformas como a da ONU, FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio e da Organização Mundial da Saúde, o Brics quer ter maior participação, maior poder de influência no mundo, para ampliar a força, a legitimidade dos países em desenvolvimento. É um grupo que precisa ser ouvido pela força que tem por “N” razões. A China gabarita todos os itens. A Rússia não é tão forte quanto o Brasil do ponto de vista econômico, mas é forte militarmente. A Indonésia tem uma grande força no mercado, e uma população que ultrapassou à do Brasil.  Ter uma agenda reformista não significa que o grupo contesta a ordem internacional, pelo contrário, a China e a Rússia estão bem confortáveis no Conselho de Segurança da ONU. Não é uma questão de implodir a ordem, mas avaliar como as diferenças dos países podem ser manejadas. A segunda questão é que essa ampliação aumenta a complexidade do grupo e eu acho isso muito interessante, desafiador, mas a realidade desses países tão diversos é uma grande vantagem. No passado, com a ideia de globalização da década de 90, as diferenças eram vistas de forma negativa. Mas a globalização na perspectiva chinesa é baseada na noção de que a harmonia está nas diferenças.  Eu defendo a institucionalização do Brics, que seria transformá-lo numa organização internacional. Há críticas a essa proposta, como o risco de trazer custos aos estados, burocratizar o processo decisório etc. Porém, não vejo que a institucionalização precise necessariamente significar uma estrutura pesada. Uma secretaria administrativa internacional pode

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Laércio Queiroz: “Pernambuco está calado em relação à Transnordestina. Isso é uma tristeza”

Economista e ex-prefeito de Bonito, o consultor Laércio Queiroz, tem sido uma das vozes mais contundentes em favor da conclusão do trecho Salgueiro-Suape da Transnordestina. Nesta entrevista concedida a Cláudia Santos e Rafael Dantas, ele exorta o Governo de Pernambuco, políticos e empresários locais a agirem estrategicamente em defesa da conexão da ferrovia ao porto pernambucano. Insatisfeito com a falta de articulação e mobilização, ele alerta que a classe empresarial e o governo cearense souberam se unir para levar a linha ferroviária até o Porto de Pecém, que começa a entrar em operação em 2026. Mais ainda: já obtiveram recursos para a instalação de um porto seco na cidade de Quixeramobim. Porto seco é um terminal de cargas, situado em terra firme, distante do litoral, mas que realiza funções similares às de um porto marítimo, como armazenamento, movimentação e despacho de mercadorias. Enquanto os cearenses já contam com a ferrovia em funcionamento no ano que vem, a conclusão do trecho até Suape, porém, está prevista para 2030. “A moeda do Ceará é tempo”, resume Laércio Queiroz, num tom inconformado.  Qual é o grande avanço do projeto da Transnordestina em Pernambuco em 2025? Antes de responder a essa pergunta, temos que retroceder um pouco no tempo. A Transnordestina é um projeto de mais de 13 anos que foi interrompido. Ele sai de Eliseu Martins no Piauí, passa pelo Araripe, por Salgueiro, vem para o Porto de Suape e sobe para o Porto de Pecém, no Ceará. É um projeto de grande importância para o desenvolvimento de Pernambuco. Foi uma ideia muito boa do Governo Lula e terminou emperrada. Em 2022, o Governo Bolsonaro, atendendo à solicitação da empresa concessionária TLSA, retirou o eixo de Salgueiro a Suape. Não só o extinguiu, como também pegou todos os recursos e colocou no eixo de Salgueiro para Pecém.  Quando o trecho Salgueiro-Suape foi retirado, em 2022, não houve uma só reclamação, uma só voz que defendesse Pernambuco. A classe política e os empresários ficaram calados. Dizem que, à época, foi aceito que, em troca desse trecho, haveria o Arco Metropolitano e a Escola de Sargentos. Não saiu nada até agora. Ainda hoje, 2025, não se vê nenhum envolvimento político claro, direto, objetivo que consiga, para Pernambuco, o recurso necessário para construir o trecho de Salgueiro a Suape.  Quando foi projetada, a Transnordestina contava com duas bitolas, uma com trilho de 1m e outra, com trilho 1,60 m. Isso possibilitaria transportar vagões de diferentes níveis, um com mais carga, outro com menos carga. Ou seja, a bitola dupla processa um maior transportamento de cargas. A TLSA, nessa época, já havia feito o trecho de Salgueiro a Custódia com uma bitola só. Recentemente o Governo Federal liberou cerca de R$ 400 milhões para se fazer 73 km deste trecho, ligando Custódia a Arcoverde, usando a bitola larga.  Essa bitola foi muito contestada por um grupo especialistas ligados ao CREA, mostrando que isso iria prejudicar Suape economicamente, porque o nível de cargas, ao invés de vir para Suape, iria para Pecém. Ou seja, recebeu-se um recurso para construir uma obra que vai ser destruída. Mais de 100 km já foram feitos até Custódia que deveriam ser desmanchados porque, na realidade, não vão funcionar para atender àquilo que representa economicamente, operacionalmente, em transporte de carga, o Porto de Suape.  Outra coisa: Se for feita apenas a ferrovia, o trem passa direto. É preciso haver, ao longo dessa ferrovia, terminais de carga, plataforma multimodal de recepção de carga, portos secos. Isso é fundamental porque, a cada porto seco, consegue-se fazer todo procedimento oficial de notificação e documentação, ou seja, toda a burocracia para levar essa mercadoria a ponto de embarque. Então é um facilitador.  Onde seriam localizados esses portos secos? Um deles em Salgueiro, onde a Transnordestina teria sua maior plataforma e ela seria muito importante para Petrobras, em razão da Refinaria Abreu e Lima. Salgueiro seria um ponto de distribuição de derivados de petróleo e gás, pois está a cerca de 600 km de cada capital do Nordeste, menos São Luís, que é um pouco mais distante. Seria um negócio fantástico para Salgueiro e para todo o Sertão de Pernambuco. A ferrovia transportaria, inclusive, gesso do Vale do Araripe, e tendo a extensão até Petrolina – trecho que não está programado – poderia transportar as frutas do São Francisco.  Entretanto, em 2022, quando foi retirado o trecho até Suape, entrou-se numa situação de muita dificuldade para Pernambuco. Em 2023, com a chegada do presidente Lula e o novo PAC, houve a retomada da Transnordestina. Mas observe o tempo: em 2022 e 2023 já começaram a colocar os recursos na mão da TLSA, via Governo Federal, para complementar a Transnordestina e oferecer as condições de operacionalidade. Enquanto Pernambuco ainda estava discutindo a mudança do projeto, o alinhamento do trecho para saber se estavam corretas questões como licenças ambientais – principalmente de Belém de Maria a Suape –, no Ceará, já resolveram tudo isso. O governo cearense está à frente discutindo, provocando, reivindicando, articulando com pessoas, empresas e entidades governamentais.  O Ceará hoje tem cerca de R$ 5 bilhões liberados e investidos e quase 100% da obra já concluída. Espera-se que, até o final de 2025, Pecém já esteja completamente construído e operando no início de 2026. Essa obra estava programada para 2030 e o Ceará conseguiu reduzir o tempo em quatro anos porque foi montada uma estratégia de governo, entendendo a importância dela para o estado. Enquanto isso, Pernambuco está calado em relação à Transnordestina. Isso é uma tristeza! Com esse processo, a moeda do Ceará, hoje, para nós, é tempo. Quanto mais tempo demorar Pernambuco, mais se consolida operacionalmente a Transnordestina ligando de Eliseu Martins até Pecém.  O Ceará está brigando por quatro portos secos, um em Quixeramobim, e já recebeu autorização de mais R$ 1 bilhão para implementar. Já houve a doação do terreno por parte do município. Quando se implanta um porto seco, cria-se motivação para novas empresas se instalarem, aumenta a oferta de emprego,

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“Os contratos empresariais serão impactados pela Reforma Tributária”

A Advogada Nathália Grizzi alerta para as mudanças que a nova lei fiscal vai provocar nas relações contratuais. Isto porque a carga tributária, embutida no preço do produto ou serviço contratado, poderá ser maior ou menor do que a atualmente paga, o que compromete os valores inicialmente acordados entre as partes. Ela orienta as empresas a adotarem a governança de contrato Embora a Reforma Tributária só comece a entrar em vigor no ano que vem – num processo que se estende até 2033 – as suas repercussões na realidade financeira das empresas, porém, precisam ser previstas pelos gestores desde já. Um dos aspectos mais delicados dessa mudança está relacionado aos contratos, em especial os que envolvem fornecimento de longo prazo, como no caso de obras, por exemplo.  Isto porque, ao se fazer um contrato, os fornecedores estabelecem a precificação do produto ou serviço contratado, embutindo os custos com os tributos. Com a criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – que substituirão PIS, Cofins, ICMS e ISS – deixa de haver a cobrança cumulativa dos impostos. Em consequência, a carga tributária poderá ser maior ou menor do que a atualmente paga nesse período antes da reforma, o que compromete os valores inicialmente acordados entre as partes. Ou seja, o preço poderá ficar defasado ou muito acima dos custos tributários. Em ambos os casos, uma das partes será prejudicada. Qual a solução? Para saber mais sobre os impactos da Reforma Tributária nos contratos empresariais, Cláudia Santos conversou com a advogada Nathália Grizzi, sócia do escritório Martorelli Advogados, onde coordena o time especializado em direito empresarial, tributário, contencioso estratégico, arbitragem e energia. Para a especialista, essa situação pode levar a um aumento de litígios e orienta os gestores a implantarem, desde já, a “governança de contrato” para se precaver de contendas ou prejuízos futuros. Confira a seguir as explicações da advogada. Por que a Reforma Tributária impacta os contratos empresariais?  A Reforma Tributária, na prática, está relacionada ao consumo, por meio de quatro tributos: PIS, Cofins, ICMS e ISS, que se transformam em dois tributos: IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Com isso, há uma simplificação no sistema, em razão da não cumulatividade dos impostos. A mudança vai impactar quem está consumindo e, consequentemente, nas relações empresariais, como contratos de compra e venda, fornecimento, locação etc. Então, todos os contratos empresariais serão impactados pela Reforma Tributária. Isto porque, ao fazer qualquer contrato de bem ou serviço, a empresa precisa precificar, levando em consideração os custos com os tributos.  Se numa operação, eu considerava uma carga tributária de 25% e ela virou 26,5%, vou ter uma perda de 1,5%. Se eu considerava uma carga tributária de 27% e ela reduziu para 22%, vou ter um ganho de 5%. Isso significa que a equação econômico-financeira do contrato pode ser impactada porque depende muito da sistemática de débito e crédito. O impacto vai mexer com os consumidores finais mas, principalmente, com as empresas de serviço ou que trabalham com capital intensivo, como a venda de mercadoria que tem uma margem específica, já considerando a carga tributária.  Como serão esses impactos e de que maneira podem ser solucionados?  A Lei Complementar 214, que trata da Reforma Tributária, já prevê que os contratos públicos precisarão passar por um reequilíbrio econômico-financeiro para levar em consideração a nova carga tributária decorrente da reforma. A lei diz que a administração pública terá que se manifestar em 90 dias para iniciar um mecanismo de reequilíbrio econômico-financeiro e garantir que aquele contrato público volte à condição original de retorno.  Por exemplo, uma concessionária de um serviço público que, ao participar de uma licitação, levou em conta o pagamento do tributo num valor que lhe dava um retorno de 15%, se há uma elevação da carga tributária, o custo aumenta e o retorno diminui. Esse procedimento de reequilíbrio econômico-financeiro que a administração pública está obrigada a fazer é para garantir que, mesmo com a Reforma Tributária, o retorno do concessionário continue sendo 15%. É o que chamamos no direito de “fato do príncipe”, quando um contrato com a administração pública é impactado por algo que é exclusividade do governo. Ou seja, nos contratos públicos, a ideia é voltar para a condição financeira anterior ao impacto da Reforma Tributária.  Em relação aos contratos privados, o problema é maior porque terão que seguir a base legislativa que regula relações entre particulares que são o Código Civil, a Lei de Liberdade Econômica e o próprio contrato. No Código Civil, há a premissa de que o contrato não pode se tornar excessivamente oneroso para uma das partes. Dessa forma, vai ser preciso observar no contrato se há algum regramento entre as partes para voltar à condição original de antes da reforma.  A discussão é que, muitas vezes, o contrato particular não traz um mecanismo para isso. Em contratos de valores menores, em tese, o problema é menor, mas em contratos de fornecimento de longo prazo o impacto da reforma será maior. Assim, num contrato entre duas empresas, uma poderá pagar ou lucrar mais que a outra. Nesses contratos maiores e mais complexos, existe um grande gargalo que precisa ser observado com cuidado pelas empresas que devem começar a tratar essa questão agora, porque não há fórmula pronta.  Nos casos desses contratos que não preveem uma solução, você acha que pode aumentar o número de litígios? Há probabilidade, sim, de litígio, de eventual hipótese de perdas e danos, especialmente em contratos de longo prazo. É importante fazer esse recorte não me refiro a qualquer contrato, mas naqueles de prestação continuada. Um contrato que inicia e encerra em 2025 não será impactado, mas um que dura três anos, por exemplo, pode, sim, gerar um incremento de litígio, e a depender do tipo de contrato, pode gerar um incremento de arbitragens. Estamos falando, por exemplo, de contratos de obra, de infraestrutura etc., muitos deles hoje já com cláusulas de arbitragem.  O que seriam

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“Nosso negócio na TGI é prestar consultoria para dar conta de gente, resultado e mudanças”

Sócios da consultoria de gestão e governança, Carolina Holanda e Ricardo de Almeida contam a trajetória da empresa, que completa 35 anos, e explicam como foi criada sua metodologia, que antecipou temas do mundo corporativo contemporâneo. Com a premissa de que o desempenho de Pernambuco e de suas empresas são indissociáveis, também comentam os projetos voltados para a promoção do desenvolvimento do Estado. Há 35 anos, os atuais sócios fundadores da TGI – Ricardo de Almeida, Francisco Cunha, Cármen Cardoso, Fátima Guimarães e Teresa Ribeiro – trabalhavam como funcionários em uma consultoria que decidiu transferir suas operações para o Rio de Janeiro. Eles, porém, optaram por permanecer em terras pernambucanas. Embora, à época, houvesse um ambiente de “baixo astral” em Pernambuco, os consultores tinham convicções de que o mercado local contava com empresas robustas e guardava latente um potencial de crescimento.  Junto com a decisão de não se mudarem para a Cidade Maravilhosa, veio também o proposito de fundar uma consultoria com proposta inovadora. Com formações distintas – no grupo há sociólogo, arquitetos, psicanalista e analista de sistemas –, os fundadores desenvolveram uma metodologia que se apoia na teoria psicanalítica e na sociologia, para entender os fenômenos organizacionais e promover mudanças, com foco em resultados. Um caminho que uniu ciência e a escuta dos clientes para criar soluções moldadas à realidade de cada empresa. O método de trabalho da TGI antecipou temas que só décadas depois ganhariam espaço no mundo corporativo, como a valorização de relações saudáveis, o papel do vínculo e o valor do conflito como motor de mudança. A opção por Pernambuco que gerou a empresa, tornou-se uma marca do seu trabalho. A TGI consolidou-se como uma das vozes mais influentes na reflexão sobre o ambiente empresarial e o desenvolvimento de Pernambuco e do Recife. Os consultores partem da premissa de que o desempenho do Estado e de suas empresas são indissociáveis. Esse compromisso se manifesta em projetos de pesquisa e debate, como o Empresas & Empresários e, mais recentemente, o Pernambuco em Perspectiva, que propõe a formulação de um novo modelo de desenvolvimento para o Estado. Também está presente em iniciativas como a criação do INTG (Instituto da Gestão) e da revista Algomais. Nesta entrevista a Cláudia Santos, o sócio-fundador da TGI, Ricardo de Almeida, e Carolina Holanda – que entrou na consultoria como estagiária e se tornou sócia – contam a trajetória da empresa, explicam a inovação da sua metodologia e de como ela se mantém atual diante dos desafios empresariais contemporâneos. Também afirmam que a TGI se mantém fiel ao seu negócio central: prestar consultoria em gestão e governança para lidar com “gente, resultado e mudanças” e contribuir para o desenvolvimento sustentável de Pernambuco e do Recife. Como a TGI foi criada? Ricardo – Cármen (Cardoso), Fátima (Guimarães), Teresa (Ribeiro), Chico (Francisco Cunha) e eu – sócios fundadores da TGI – trabalhávamos na consultoria Macroplan, que se transferiu para o Rio de Janeiro. Mas decidimos não ir. Sabíamos que nosso lugar era o mercado de Pernambuco, então deixamos de ser técnicos dessa empresa e empreendemos a TGI.   Somos de áreas distintas, e essa diversidade foi muito importante para construir a metodologia da TGI. Eu, com minha formação em sociologia, Chico e Fátima em arquitetura, Cármen em psicanálise e Teresa em análise de sistemas. Foi nessa teia de saberes que desenvolvemos uma metodologia muito importante e que nos distingue hoje nesse mercado.  Quais os diferenciais e as vantagens da metodologia da TGI para o cliente?  Carolina – A base da metodologia foi a percepção sobre os processos de gestão, governança e desenvolvimento de equipes. Foram realizados estudos sistemáticos em que a base da metodologia era a psicanálise, a psicossociologia para entender como aconteciam esses processos, como construir um novo entendimento sobre os fenômenos organizacionais. Ricardo – Nós, os fundadores, nos reuníamos semanalmente para realizar esses estudos sistemáticos, a partir da teoria psicológica (psicanálise principalmente) e da sociologia. Também trouxemos autores, como o francês Eugène Enriquez (professor emérito de Sociologia da Université de Paris 7), que passou uma semana aqui fazendo seminários, além de outros especialistas. Nosso intuito era saber como nosso trabalho pudesse ser efetivo, ter robustez consistente e não uma simples moda que não se sustenta.  Carolina – Uma de nossas preocupações é o cliente ter resultado com nosso trabalho. Hoje, fala-se do emocional dentro das empresas, em como construir vínculos e relações saudáveis. Mas essas questões já pensávamos há 35 anos. É um dos nossos principais diferenciais: a escuta da singularidade de cada empresa, a forma como ela funciona. É um trabalho que não cabe em pacotes prontos, porque cada empresa, cada empresário, cada gestor, tem sua singularidade. Outro entendimento original nosso é o de que precisamos construir vínculos sólidos de confiança com o cliente. Ricardo – Não trabalhamos apenas para o cliente nem pelo cliente, trabalhamos com o cliente. É uma parceria, juntamos nossa competência em gestão e governança à competência do cliente no seu negócio. Somos especialistas em método, e o cliente especialista no negócio dele.  Carolina – Na nossa metodologia, sabemos que não há ausência de conflito nas empresas. O conflito é, pelo contrário, matéria-prima do nosso trabalho, faz parte da dinâmica da organização e precisamos entender como administrar tais conflitos para induzir um ambiente mais saudável e passível de inovação. A partir do conflito, pode surgir algo novo.  Como você entrou na TGI, Carolina? Carolina – Entrei na TGI como estagiária no ano 2000. Estudava psicologia, sempre tive interesse na psicanálise e soube que as inscrições para o programa de estágio estavam abertas. Eu me interessei pela TGI porque sabia que a metodologia tinha a psicanálise como base. O programa de estágio era bem robusto, com muitos candidatos e várias etapas. Ricardo – Nosso programa de estágio era muito desejado. Era um processo seletivo rigoroso. Os estagiários começavam um processo de formação desde que entravam. Isso é outra diferença da TGI. Temos uma equipe que foi desenvolvida a partir dessa metodologia e, desde o início, incorporava a prática de

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SANDRA Credito Lays Cavalcanti

Sandra Kattah: “A infância tem que ser infância, sem pressa e sem excesso de telas”

Psicopedagoga, fundadora da Vila Aprendiz, alerta sobre a ansiedade em crianças e adolescentes, defendendo o resgate do brincar, da rotina e da contemplação como caminhos para uma formação emocional saudável. Foto: Lays Cavancalti A ansiedade tem se tornado uma das principais preocupações entre pais e educadores, não apenas entre adultos, mas já impactando fortemente crianças e adolescentes. Para a psicopedagoga Sandra Kattah, fundadora da escola Vila Aprendiz, a raiz desse problema está em um ritmo de vida acelerado, marcado pelo excesso de telas, agendas lotadas e a falta de tempo para o brincar livre. “A infância precisa ser respeitada em seu tempo, sem a pressa de se tornarem bilíngues ou de já pensarem no Enem tão cedo”, ressalta. Sandra chama atenção para sinais que não podem ser ignorados, como inquietação excessiva, tiques nervosos, roer unhas e dificuldade de concentração. Segundo ela, o resgate do ócio, das brincadeiras livres e do contato com a natureza são práticas fundamentais para fortalecer a saúde emocional na primeira infância e evitar que transtornos de ansiedade se prolonguem até a vida adulta. “O brincar é o maior centro de pesquisa da infância”, ressalta a especialista, destacando a importância de equilibrar rotina, convivência familiar e estímulos adequados ao desenvolvimento de cada fase. Por que percebemos de forma tão intensa a ansiedade em crianças e adolescentes? Acredito que o ritmo de vida da atualidade, com um mundo de ofertas pelas redes sociais e a busca de uma perfeição, que não existe, leva as famílias a desejarem “o mundo” para os filhos e, assim, ofertarem tudo que, muitas vezes, eles, pais, não tiveram. As crianças são frutos da vivência familiar, e como se deseja o mundo, iniciam-se cada vez mais cedo os estímulos com as crianças.   Hoje há uma sede muito grande de acelerar a vida delas com bilinguismo, trilinguismo, agendas lotadas. Sem contar o acesso excessivo às telas. Tudo isso leva a uma ansiedade intensa da criança e do adolescente. É um fenômeno acentuado até pela ausência dos pais. Para não terceirizar só com babá, ocupam os filhos com muita coisa. Isso causa ansiedade neles. Como se dá o processo de ansiedade nas crianças que usam a internet? Qual o mecanismo que provoca a ansiedade?  O processo de ansiedade nas crianças não se dá por uma combinação de mecanismos psicológicos e neurobiológicos. É um processo que ocorre de forma gradual e que envolve fatores como a superestimulação, comparação social, ciberbulling, pressão social. Assim como o processo, o mecanismo também não é algo simples, envolve ativação de sistemas cerebrais fundamentais como o sistema de recompensa, que libera a dopamina (neurotransmissor que atua como um mensageiro químico no cérebro, sendo fundamental para a motivação, prazer, foco e coordenação motora) e, a cada estímulo, uma recompensa, o que vicia a criança na busca do prazer constante. Outro sistema ativado é o de luta, que envolve a amígdala (estrutura localizada no cérebro, responsável pelo processamento e regulação das emoções, como o medo, e pela consolidação da memória) e o cortisol (popularmente chamado de “hormônio do estresse”).   Esse sistema ativa o centro do medo e ocorre a liberação do cortisol, da adrenalina, deixando o corpo em um estado de alerta baixo, mas constante, que é a base da ansiedade generalizada.  Esse processo produz, ainda, a sobrecarga do córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelo controle de impulsos, tomada de decisões e controle emocional. As crianças, ainda em formação, são superestimuladas e sobrecarregam essa área do cérebro, dificultando que elas lidem de forma tranquila com frustação e emoções negativas, levando-as à impulsividade e à ansiedade. O que exatamente a tela provoca no emocional, na mente das crianças, causando a ansiedade excessiva? O excesso de telas prejudica muitas coisas, inclusive as questões estruturais do cérebro. Ocorre um afinamento do córtex de forma prematura, isso já é sugerido em vários estudos por neurologistas e pesquisadores da área.  Para nós, que lidamos com eles na educação, às vezes o TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) é instalado por excesso de telas, que trazem um volume de imagem e sons muito altos, que nenhum ser humano iria conseguir fazer, e deixam as crianças fascinadas. E aí, elas não conseguem se deter diante de um professor com um livro aberto, mesmo com imagem.  Quando a gente trabalha com a contação, diante dos livrinhos, dos fantoches e sem o acesso à tela, eles vão desenvolvendo essa capacidade de forma mais saudável. Hoje é quase impossível as famílias não conseguirem dar esses dispositivos de tela para as crianças. Às vezes, até acham que é uma coisa bacana, positiva, porque tem a propaganda de alguns vídeos, de algumas séries. Eles terminam sendo reféns disso. Para poder dar conta da casa ou porque precisam se ocupar de alguma coisa, terminam dando o celular ou o tablet prematuramente às crianças.  A gente recomenda, inclusive, que as famílias ao procurarem um restaurante, escolham o que tenha parquinho ou uma área livre, mas não deixe a criança sentada com a tela na mão. Isso realmente é o caos. Mas muitas pessoas não conseguem e cedem. Só conseguem interromper quando o problema já está instalado. Essa é uma pauta muito grave na atualidade que a gente se preocupa muito. Eu trabalho com duas realidades. A criança de alto padrão e a criança carente. Essa também vê alguns conteúdos nas telas com os pais, mas bem menos. Ela tem uma capacidade criativa e uma estrutura emocional, às vezes, bem melhor do que a criança de alto padrão financeiro e isso me entristece muito, porque o alto padrão teve acesso a muita informação. Os mais carentes, por falta de recursos mesmo, acabam não tendo tanto o acesso à tela quanto os mais abastados. Quando é preciso se preocupar com o nível de ansiedade dos pequenos?  Normalmente eles apresentam sinais de inquietação exacerbada, como a dificuldade de conseguir parar diante de alguém contando uma história.  Apesar de estar atrelado ao excesso de telas, eles começam com tiques, mordendo a unha, mãozinha na boca excessivamente numa

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foto Pierre Lucena

Pierre Lucena: “A área de negócio está cada vez maior no Rec’n’Play”.

Presidente do Porto Digital anuncia que haverá mais espaço nas ativações do festival realizadas nas ruas e em atividades, como a Arena de Inovações, e que mais de 200 startups vão negociar com grandes investidores no Cais do Sertão. Também ressalta que o Recife é a cidade que tem o maior número de alunos e profissionais no setor de TI no País.  Rec‘n’Play, que acontece entre os dias 15 e 18 deste mês, chega à sua sétima edição com um grande estímulo às startups. A Arena de Negócios, neste ano, vai ocupar o prédio inteiro do Cais do Sertão e mais de 200 dessas novas empresas vão mostrar as suas inovações para investidores. Outra novidade é que as ações do evento realizadas nas ruas contarão com mais espaço, proporcionando mais conforto ao público. Uma mudança necessária já que, segundo o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, na edição passada, estimava-se uma frequência de 60 mil pessoas, mas apareceram 90 mil. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Pierre Lucena, fala de outras novidades, como a Arena de Inovações, que estará no Armazém 14, com ativações relacionadas à inteligência artificial, Internet das Coisas, entre outras tecnologias, o Let’s Play, festival que traz talentos promissores da música pernambucana, além da participação do historiador Leandro Karnal, do jornalista Guga Chacra, entre outros.  Lucena também comenta as ações de interiorização do Porto Digital e o desempenho do Recife, que registrou o maior percentual de crescimento de emprego formal na área de TI no País, graças aos programas de formação de profissionais. Ele defendeu, ainda, que os eventos no Estado se transformem também num atrativo do turismo. E, de olho nesta perspectiva, o presidente do Porto Digital, planeja, para o ano que vem, organizar o Rec‘n’Play dentro de um calendário turístico de negócios. O Rec‘n’Play está na sétima edição. Quais as novidades em relação à edição passada e qual a expectativa para este ano?   Sempre nos preocupamos em mobilizar as pessoas do Recife para criar o imaginário da inovação. Isto está no DNA do Porto Digital e o Rec’n’Play é hoje nosso principal instrumento de comunicação com a cidade. Tivemos mais de 90 mil inscritos na edição passada, esperamos a mesma quantidade este ano. Ano passado surpreendeu porque trabalhamos com um teto de 60 mil. A primeira decisão tomada para esta edição foi espaçar mais as ativações para evitar que as ruas fiquem muito cheias e para proporcionar mais conforto ao público. Talvez se tenha a impressão de que o festival está mais vazio, na verdade, estará mais espaçado.  Ano passado, a fila da Arena de Inteligência Artificial estava sempre quilométrica. Decidimos alugar todo o Armazém 14 para realizar a Arena de Inovações, com mais de 10 inovações de maneira geral – não só na área de IA – trazidas pela Prefeitura do Recife, Governo do Estado, inventores e empresas. Teremos o Batom Inteligente, com o qual o CESAR ganhou um prêmio, uma ativação da Neurotech, experiências relacionadas à IOT (Internet das Coisas).  Teremos um espaço para o Porto Mais, com programas de diversidade que estamos começando no Porto Digital. Um deles é o Pilar Universitário, no qual oferecemos bolsa de estudo na Faculdade Senac para moradores da comunidade do Pilar. Fizemos uma turma de 50 pessoas trans. Além da capacitação, o programa também ajuda na busca por emprego.   E sobre os negócios? A divulgação do evento afirma que haverá um espaço voltado à internacionalização.  Sim. A área de negócio está cada vez maior no Rec’n’Play. A Arena de Negócios, patrocinada pelo Governo de Pernambuco, vai estar cada vez mais dentro do festival. Ela foi inaugurada em 2023 em uma sala. Ano passado, fizemos uma exposição de startups, este ano, ela vai acontecer no prédio inteiro do Cais do Sertão e será bem maior. Serão mais de 200 startups buscando investidores, duas salas de conteúdo e um hall, que é um espaço de articulação e de exposição, tipo um auditório, onde são feitos os pitchs de cases.  Estamos trazendo o presidente do Google Brasil [Fábio Coelho], a presidente da Microsoft Brasil [Priscyla Laham], o presidente da Stefanini [Marco Stefanini], entre outras empresas e investidores. Essa arena é o espaço qualificado de negócios do Rec’n’Play e vai crescer cada vez mais como uma opção estratégica do evento.  Também investimos no conteúdo da internacionalização, pois temos o Porto Digital em Portugal. Entre outras pessoas, vamos trazer a embaixadora da Alemanha [Bettina Cadenbach] e o embaixador da França [Emmanuel Lenain] e anunciar a chegada de uma empresa francesa no Porto Digital, a maior empresa europeia de serviços e tecnologia. É uma programação especial em razão do ano do Brasil na França e da França no Brasil.  Quais as novidades na programação cultural? A cultura é uma opção estratégica do evento. Mas o objetivo não é transformar o Rec‘n’Play em um festival de entretenimento, queremos ser um festival cultural. A Cultura está no DNA do Porto Digital, e a principal inovação do Rec‘n’Play, neste sentido, é promover um festival de música pernambucana, chamado Let’s Play. Abrimos uma chamada, vieram mais de 240 artistas, e a curadoria do selo Estelita selecionou 20 atrações. Queremos descobrir os novos artistas que daqui a 10 anos vão encher o Marco Zero, como aconteceu com o Abril pro Rock.  Além do festival, teremos quatro palcos: o de Hip Hop, o Palco do Sesc, o Palco Pernambuco Meu País, que é do Governo do Estado, e o palco da Prefeitura do Recife, que este ano será na frente do Paço Alfândega. A programação vai contar com nomes como: Filipe Catto, Cordel de Fogo Encantado, Academia da Berlinda, Otto, Ave Sangria, Del Rey, Joyce Alane, Sandra de Sá, Walter de Afogados, um cantor brega muito conhecido nos anos 1970/80.  No palco do Sesc, entre outras atrações, haverá uma festa com Lúcio Maia, que foi da Nação Zumbi, e BNegão, do Planet Hemp. No sábado, teremos o Pagode do Didi e um carnaval com a presença dos blocos Homem da Meia-Noite, Vassourinhas e Pitombeiras.  Apostamos também na

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William Serrano Smethurst 1

Entrevista com William Smethurst: “Não nascemos para ficar sentados”

O corpo humano é dependente do movimento. O professor de educação física da UPE explica por que a evolução da espécie nos moldou para manter nosso corpo em atividade. Aborda como o exercício físico contribui para prevenir e tratar doenças, como câncer e Alzheimer, e informa qual a atividade oferece melhores benefícios: correr ou caminhar. Exercitar-se é uma atividade que vai muito além do desejo de emagrecer. Na verdade, o movimento faz parte da natureza do ser humano, desde os tempos em que nossos ancestrais viviam nas cavernas. O educador físico e professor da UPE (Universidade de Pernambuco), William Smethurst, explica, nesta entrevista a Cláudia Santos, como as necessidades do Homo Sapiens por alimentação e sobrevivência, durante o processo de evolução, levou-o a uma intensa atividade física que estruturam o formato do seu corpo, a expansão do seu cérebro e da sua capacidade cognitiva. Se hoje não já corremos para caçar nossa comida e, no conforto do sofá, com simples toques no celular, obtemos alimentação por delivery, não significa que prescindimos de exercícios físicos. Nosso organismo, tal qual o do nosso longínquo parente pré-histórico, continua dependente do movimento. Estudos científicos, segundo William Smethurst, comprovam como a prática regular de exercícios físicos contribuem para manter o organismo saudável e para prevenir e tratar doenças, como câncer e Alzheimer. O educador físico também comenta a grande adesão dos brasileiros às corridas, mas – para a satisfação dos que preferem caminhar – afirma que as caminhadas oferecem os mesmos benefícios para a saúde do que correr. E o melhor: sem provocar riscos ao praticante, como pode acontecer com os corredores.  No início de sua evolução, o ser humano não tinha comportamento sedentário. Como essa característica ancestral impacta no corpo humano hoje? Há cerca de 5 a 7 milhões de anos, uma certa espécie ancestral, ainda não bem definida pela ciência, dividiu-se em duas linhagens. Uma delas evoluiu para os grandes símios, como chimpanzés e gorilas, com corpos musculosos e compactos, adaptados à vida em bosques e florestas, onde encontram sua alimentação e sobrevivência. A outra linhagem deu origem aos Homo sapiens, caracterizados por corpos esguios, pelo andar sobre as duas pernas, um cérebro bem desenvolvido e com uma fisiologia adaptada à intensa atividade física que os constantes deslocamentos para a caça e a coleta de alimentos exigiam para a sobrevivência na vida terrestre.     Portanto, nossos parentes mais próximos – os símios – têm níveis baixos de atividade física que não causam efeitos nocivos à saúde. Já nos seres humanos, pesquisas revelam que à medida que a anatomia e o comportamento mudaram nos últimos milhões de anos, a fisiologia também mudou de tal modo que passamos a precisar de níveis muito mais altos de atividade física para sermos saudáveis. Para equilibrar a relativa fragilização do seu físico durante a evolução da espécie com as demandas de sobrevivência, o ser humano necessitou fazer uso extensivo do seu corpo, aprimorar habilidades percepto-motoras para realização de movimentos corporais cada vez mais complexos e precisos, além de desenvolver tolerância a esforços repetitivos e prolongados. Para dar conta dessa diversidade de novas demandas, o cérebro foi pressionado a expandir suas capacidades durante seu curso evolutivo.  Assim, pode-se afirmar que foram principalmente os movimentos corporais, cada vez mais sofisticados e eficientes, dentro de um estilo de vida fisicamente muito ativo, que induziram as adaptações estruturais do sistema nervoso central. O que permitiu ao Homo sapiens diversificar e aprimorar suas relações com seus semelhantes, com o ambiente e outras espécies, desenvolver sua capacidade criativa e alcançar o nível hierárquico mais elevado na escala evolutiva. Portanto, não nascemos para ficar sentados. Outro aspecto importante é que nosso coração é uma bomba que precisa ser poderosa para fazer o sangue circular por todo o corpo. Sabemos que o lado esquerdo do coração é muito mais robusto, mais volumoso, mais musculoso que o lado direito, que é menor. Mas, veja: a circulação sanguínea é um sistema fechado.  Como é que o sangue circula se, de um lado, há uma bomba poderosa para empurrá-lo, mas no outro lado a bomba que “puxa” é mais débil? Então, há algo ajudando esse lado menos forte que é a musculatura dos membros inferiores, do quadril, que deve estar em constante movimento ou em movimento tonificado, contraindo e relaxando, para manter a postura e ajudar o coração a bombear o sangue.  Então, quem costuma fazer exercício de manhã, depois passa o restante do dia sentado, não tem uma vida muito saudável? Michael Mosley, jornalista e médico, fez estudo em que comparou um escritor – que diariamente fazia duas horas de academia mas passava o restante do dia sentado – com uma moça que passava o dia em pé trabalhando e nunca foi a uma academia. Ele mostrou que todos os indicadores de saúde desse escritor eram piores do que os da moça.  Por isso, é recomendado inserimos na nossa rotina os breaks, a cada 50 minutos para que possamos levantar, durante 5 a 10 minutos, para então voltar e depois sentar novamente. Se nascemos para o movimento, quais os prejuízos causados pelo comportamento sedentário? Para que tenhamos um correto funcionamento do nosso organismo faz-se necessário que ele seja constantemente exposto às mesmas condições que proporcionaram seu desenvolvimento e aprimoramento no processo evolutivo. Do contrário, ele pode tornar-se disfuncional, o que, em médio ou longo prazo, degenera para condições patológicas crônicas.  Está muito bem documentada a associação da inatividade física com o aumento do risco para câncer, doença coronariana, acidente vascular cerebral, diabetes, demência, dentre outras de caráter degenerativo e crônico. Do mesmo modo também está comprovado o quanto a prática regular de atividade física, juntamente com uma alimentação balanceada, é o principal fator de redução de riscos para essas doenças. Como a prática de exercícios físicos ajuda a prevenir e tratar o câncer? O corpo humano possui mecanismos autônomos de, digamos, “autorreparo” para, na hora que houver um distúrbio, esse sistema fazer o reparo antes que aquilo se torne catastrófico. Todos estamos sujeitos a ter alterações espontâneas no

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Diego presidente acate 2

Diego Ramos: “Nosso tempero secreto é a cultura de colaboração”

Em entrevista exclusiva durante o Startup Summit, Diego Brites Ramos, presidente da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), detalha como a capital catarinense construiu em quatro décadas um dos maiores polos de inovação do Brasil — um caminho que dialoga com os desafios e conquistas do Porto Digital, em Pernambuco. Durante a cobertura da participação das startups pernambucanas no Startup Summit, a Algomais também voltou os olhos para outro protagonista da cena nacional de inovação: Florianópolis. A capital catarinense tem hoje na tecnologia o setor responsável por 25% do seu PIB, resultado de um processo de organização que começou ainda nos anos 1980 e que hoje se desdobra em um ecossistema com quase 30 mil empresas espalhadas pelo estado. Na entrevista a seguir, Diego Ramos, presidente da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), explica ao repórter Rafael Dantas como uma cidade que não podia depender da indústria de transformação ou de um turismo sazonal reinventou sua matriz econômica. Ao relatar a importância da cultura de colaboração, das incubadoras e do fortalecimento de polos regionais, Ramos oferece pistas que dialogam diretamente com os desafios enfrentados em Pernambuco, onde o Porto Digital também busca ampliar conexões com setores tradicionais e fortalecer a presença das empresas locais no cenário global. Por que Florianópolis está “bombando” em tecnologia e inovação? O que esse polo tem feito impulsionar o sistema?  Eu sempre falo, o que a gente está vivenciando agora não é algo que foi construído da noite para o dia. É algo que a gente vem construindo há muito tempo, praticamente há quatro décadas. Em Florianópolis, vivemos em uma ilha, onde mais da metade do território é de preservação ambiental. Logo, a cidade não pode comportar a indústria de transformação.  Então, lá atrás, pensamos: poxa, não dá para depender só do turismo, que diferente do Recife, que vocês têm oportunidade, tem calor o ano inteiro. Aqui não temos. Nosso turismo é muito sazonal. Também não podemos depender só do poder público.  Entendeu-se que deveríamos focar numa nova matriz econômica. E foram se construindo as bases para tudo isso. Uma dessas foi a Acate, a Associação Catarinense Tecnologia. Essa foi uma forma de as empresas se organizarem. Mas tem o nosso tempero secreto, que a gente fala, que é essa cultura de colaboração que a gente construiu. Por exemplo, eu e esses tantos aqui – diretores da associação – somos voluntários. A gente busca um propósito maior de construir um ecossistema em que todos possam se beneficiar dentro desse espírito de colaboração.  E crescemos bem acima da média geral em 2024, fazendo com que passássemos do sexto para o quinto faturamento do Brasil, ultrapassando o Rio Grande do Sul. Isso é representativo, porque estamos falando de forma absoluta. Nosso Estado é pequeno, tem apenas 1,1% do território e 3,4% da população brasileira. Sermos o quinto maior polo de faturamento é bem representativo. Qual é o tamanho da Acate? A CAT tem 39 anos, ela começou com menos de 10 empresas associadas. Hoje já são 1.800, o que nos faz ser uma das maiores entidades de tecnologia do País, embora tenhamos atuação somente regional. Como é que funciona esse ecossistema local?  As empresas estão localizadas no estado inteiro. O número total é de quase 30 mil empresas de tecnologia. Então, obviamente, o setor é muito maior que os nossos associados.  Uma característica importante de Santa Catarina é que a tecnologia tem a força do Polo da Grande Florianópolis, que hoje tem se destacado bastante, mas temos mais sete polos espalhados pelo Estado. A gente busca sempre fortalecer cada vez mais esses polos.  Nós temos em Florianópolis a Incubadora Miditec há 27 anos, mantida com parcerias com o Sebrae. A incubadora é um de sucesso, eleita por três vezes uma das cinco melhores do mundo. Uma estrutura que graduou grandes empresas, com 95% a taxa de sobrevivência de quem participa desse programa. A gente estruturou uma metodologia e vamos replicar isso em todo o estado.  Em termos de participação na economia, qual o tamanho desse ecossistema de tecnologia? Hoje nós temos Florianópolis com uma capital que se destaca com 25% do PIB da cidade do setor de tecnologia. E falando em termos de estado, são 7,75% do PIB. Então, a gente tem bastante pista ainda para percorrer.  Como é o relacionamento desse setor de tecnologia com os demais setores produtivos do estado? Ele é muito bom, mas a gente precisa explorar um pouco mais. Isso é o desafio que a gente tem, principalmente de aproximar, o que a gente chama de indústria tradicional da nossa indústria, que é uma indústria mais digital. Ainda temos uma indústria que é muito conservadora e a Acate tem esse trabalho de atuar, por exemplo, com a Federação das Indústrias, de conseguir apoiar as empresas. Temos um programa de inovação aberta, que é o LinkLab, que é uma forma também de a gente conectar essa indústria com o setor de tecnologia. Hoje em Pernambuco, temos algumas dificuldades também nesse sentido.  Às vezes uma empresa de tecnologia local tem mais conexões até com o mercado exterior do que às vezes com o mercado local. Isso parece um desafio comum na área de tecnologia. Hoje, das atividades das empresas locais de tecnologia há alguma característica principal em que esses negócios estão mais conectados? Aqui nossas empresas de tecnologia atuam muito no B2B (Business-to-Business, negócios que vendem para outras empresas).  Diferente de grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, que acaba sendo muito B2C (Business-to-Consumer, venda para o consumidor final). Então, temos essa característica, mas elas atendem os mais diferentes setores. Tanto que a Acate hoje tem 13 verticais de negócio: agro, fintech, educação, manufatura, entre outros. Então acaba tendo clientes de diversos setores, mas são a maior parte B2B e também é a maior parte SaaS também, desenvolvimento de software como serviço. Em geral, esses polos têm muitas empresas, mas algumas gigantes que ancoram o setor. Quais são as grandes empresas do polo tecnológico de Santa Catarina?  Como é um ecossistema já de

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