Com o envelhecimento da população, Pernambuco necessita adequar as áreas urbanas às necessidades desse grupo etário. Especialistas defendem a ampliação de experiências como o Compaz e o Centro de Convivência da Pessoa Idosa.
*Por Rafael Dantas
Enquanto a população idosa de Pernambuco cresce em ritmo acelerado, as transformações urbanas necessárias para atender a esse público avançam de forma morosa. A mobilidade urbana é um desafio para os mais velhos, os serviços públicos permanecem insuficientes ou mal distribuídos e boa parte da infraestrutura das cidades continua sendo planejada sem considerar adequadamente as necessidades da terceira idade. Diante das projeções demográficas para os próximos anos, os investimentos em infraestrutura voltada ao envelhecimento ainda são pontuais. O desafio que se impõe é a construção de cidades mais inclusivas, acessíveis e preparadas para uma geração que ocupará um espaço cada vez maior na sociedade.
No Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade, todas as 20 cidades líderes em qualidade de vida para a terceira idade (nos rankings de grandes, médias e pequenas) são do Sul e Sudeste. O Recife aparece na 40ª colocação, sendo ainda a melhor do Nordeste. O desempenho da capital pernambucana é puxado por indicadores de saúde, como quantidade de leitos hospitalares (4º) e procedimentos hospitalares (3º). A pior dimensão da capital pernambucana é a econômica. O Recife ocupa a 265ª posição nacional em vulnerabilidade social dos idosos e a 169ª em segurança financeira dessa população. Apesar de algumas classificações críticas, a capital tem uma situação muito melhor que as demais grandes cidades do Estado, como Caruaru, Olinda e Jaboatão dos Guararapes (veja no tabela abaixo).

A rotina da aposentada Ivone Costa, de 68 anos, é marcada por deslocamentos constantes pela cidade e ilustra esse desafio. Moradora da periferia da Zona Norte do Recife e aposentada há oito anos após trabalhar como atendente de farmácia, ela frequenta sessões de fisioterapia no Prado, hidroterapia no Arruda e participa das atividades do grupo Recanto da Boa Idade Maria das Neves, no Alto José Bonifácio.
Entre calçadas esburacadas, ladeiras íngremes e vários ônibus, ela faz um esforço circulando pela cidade para manter uma vida ativa. Além dos obstáculos para chegar aos pontos de ônibus, Ivone aponta problemas no transporte público e na distribuição dos serviços de saúde. Ela considera que muitos ônibus têm degraus mais altos, tornando o embarque e desembarque mais difíceis, e nem sempre os motoristas respeitam os passageiros mais velhos. Para conseguir atendimento especializado, ela precisa percorrer grandes distâncias.
Embora sua rotina revele alguns dos desafios enfrentados pela população idosa nas cidades pernambucanas, Ivone acredita que as dificuldades vão além da falta de infraestrutura ou de serviços adequados. Para ela, esses obstáculos refletem uma questão mais profunda: a invisibilidade dos idosos nos espaços urbanos e nas relações cotidianas. “Em muitos lugares o idoso é praticamente invisível. Isso acontece na fila do médico, no ônibus e em vários outros espaços. Precisamos de uma cidade que enxergue mais quem envelheceu nela.”
CIDADES AMIGAS DAS PESSOAS IDOSAS
Após ouvir idosos, numa escuta ativa sobre os problemas da vida urbana, o gerontólogo Alexandre Kalache, há 20 anos, trabalhou na construção do Protocolo de Vancouver. O documento foi um marco que definiu oito domínios essenciais para mensurar o grau de “amigabilidade” das cidades: espaços públicos, transporte, habitação, participação social, respeito e inclusão, participação cívica e emprego, comunicação e informação, apoio comunitário e serviços de saúde.
Em seu livro A Revolução da Longevidade, Kalache defende que “uma cidade amiga da pessoa idosa não é apenas calçada rebaixada ou ônibus acessível: é também respeito, pertencimento e segurança emocional”. Entre os pilares do envelhecimento ativo, o autor sugere eixos como participação, segurança/proteção, saúde, aprendizagem ao longo da vida. Todos eles podem ser impulsionados ou prejudicados quando a cidade é mais ou menos amistosa à sua geração prateada.

A socióloga e geógrafa Gerly Fialho, professora da Unit-PE, destaca que o Recife já desenvolveu iniciativas voltadas à inclusão da população idosa, como concursos de dança, ampliação de serviços e ações de cidadania. No entanto, ela ressalta que o envelhecimento da população exige uma abordagem mais ampla e permanente por parte do poder público. Segundo a docente, os idosos demandam acesso a serviços de saúde, a espaços adaptados, a áreas verdes e oportunidades de convivência e socialização, fatores fundamentais para a manutenção da saúde mental, da autonomia e da dignidade ao longo do envelhecimento.
Um dos principais avanços para os idosos no Recife foi a inauguração do Centro de Convivência da Pessoa Idosa Maria da Conceição Guedes Pereira. Implantado pela prefeitura da capital, o espaço promove a inclusão digital, oferece educação, lazer e cultura, além de práticas integrativas, como ioga. “Existe uma atenção, mas ainda não atende a todos(as) idosos(as) da cidade. A prefeitura já deu um grande passo, mas é preciso observar outras prioridades, como a mobilidade urbana. Essa talvez seja uma grande necessidade, porque todas essas atividades necessitam de transportes para grande parte da população”.
MOBILIDADE EM XEQUE
Mesmo com algumas estruturas voltadas para a terceira idade e vários parques distribuídos pela cidade, a mobilidade urbana é um dos gargalos para todos os moradores, mas que afeta de forma mais dramática a geração prateada, seja na capital, na região metropolitana ou no interior. Além de problemas infraestruturais e culturais específicos que atingem a terceira idade, o Recife possui o pior trânsito do País, segundo o relatório TomTom Traffic Index.
O diretor da regional Nordeste da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), César Cavalcanti, aponta três problemas principais: calçadas impróprias, tecnologia de acessibilidade inadequada dos ônibus e falta de comunicação. O transporte público, que é operado por empresas privadas e em um sistema gerenciado pelo Consórcio Grande Recife, vinculado ao Governo do Estado, porém, é o fator prioritário, segundo o especialista, que é engenheiro e doutor em planejamento e engenharia de transportes.
“Tenho 85 anos, mas sou atleta e faço academia algumas vezes por semana. Mesmo assim, tenho dificuldade principalmente para descer do ônibus, que é quando os acidentes tendem a acontecer”, relata. “Considerando o transporte coletivo, o maior problema com a dificuldade dos idosos acessarem os ônibus, devido aos degraus bastante altos”, afirmou Cesar, repetindo a mesma crítica de Ivone.

O engenheiro considera que a alternativa para solucionar esse problema seria a utilização de veículos de piso baixo. “Quando o ônibus encosta na calçada, fica praticamente no mesmo nível, facilitando o acesso da pessoa idosa. Essa mudança tem o inconveniente de custo de capital elevado. O sistema já tem dificuldade de obter recursos. Vai depender de decisão política.”
As outras alternativas mais infraestruturais e mais caras seriam uma maior oferta de BRTs ou de linhas de metrô. Essas tecnologias dispõem de estações que permitem o acesso ao veículo de forma mais facilitada. Além disso, oferecem maior fluidez no trânsito pela condição de segregação do espaço.
“BRT e metrô (que tem respectivamente gestões estadual e federal) são mais seguros, mais confortáveis, têm maior capacidade, mas tudo isso significa custos mais elevados e disputam recursos governamentais com todas as outras urgências”, afirmou Cesar. Ele lamentou que o metrô do Recife transporte uma carga menor de passageiros em comparação ao seu potencial e criticou o excesso de baldeações do sistema de ônibus, que complicam a vida dos passageiros, incluindo os idosos.
O diretor da ANTP também chama atenção para a deficiência das informações oferecidas aos usuários do transporte público. Segundo César Cavalcanti, muitas paradas não dispõem de orientações básicas sobre linhas e horários, enquanto outras têm a sinalização prejudicada por vandalismo e publicidade irregular. Para o especialista, fortalecer a comunicação é fundamental para incentivar o uso do transporte coletivo, especialmente entre os idosos, que dependem de informações claras para planejar seus deslocamentos com mais segurança.
CALÇADAS INTERROMPIDAS

A condição das calçadas de várias das grandes cidades do Estado são péssimas, quando não inexistentes. Ressalte-se que a manutenção delas é de responsabilidade dos moradores. Além do deslocamento típico para atendimentos médicos ou para cumprir obrigações, um estudo da Fundação Perseu Ábramo, de 2020, revelou que 16% dos idosos do Brasil passaram a fazer caminhadas após os 60 anos e 11% a passear mais. Ao todo, 46% dessa população tem costume de caminhar como atividade física e lazer. Práticas importantes para a saúde física e mental, mas que esbarram nesse primeiro degrau da cidadania.
Ivone avalia que a cidade ainda oferece muitas barreiras para a população idosa. “Eu acho um descaso. As calçadas são uma das maiores dificuldades. Tem rua com o nível muito alto e muito baixo, carro estacionado de maneira errada e lixo no caminho, obrigando o idoso a passar pelo meio da rua”.
A percepção é compartilhada por César Cavalcanti, que critica a calçada da Rua 48, no Espinheiro. Mesmo em um bairro com condições privilegiadas de transporte público, por exemplo, e urbanizado, o pedestre idoso sofre. “É um terror. Tem trechos bons, de primeiro mundo, mas a maioria é ruim. Há desníveis, material escorregadio e inadequado, um problema sério para o idoso”, afirma.
O curto espaço é disputado por ciclistas, comerciantes, estacionamento para veículos, além dos resíduos urbanos. Sem um controle urbano forte e sem investimento em melhores soluções como calçadas acessíveis, travessias seguras e mobiliário adequado, a cidade se torna cada vez mais hostil para a população idosa. O Recife mais uma vez tem experiências importantes, especialmente nos bairros centrais, mas precisam ganhar escala e que podem ser replicadas em outras cidades pernambucanas.

Gerly Fialho sugere que a falta de sinalização, as calçadas danificadas e a falta de acessibilidade para cadeirantes são alguns dos fatores que impedem ou dificultam a circulação dos idosos pelas cidades. Além disso, outro problema destacado são as travessias rápidas. “Nem todo idoso tem a mesma mobilidade. Uns são mais lentos que outros. Precisamos melhorar as calçadas, nivelando com continuidade. As travessias precisam ser mais seguras e com sinalização, ter boa iluminação pública”, sugeriu.
ALÉM DA ACESSIBILIDADE
A qualidade de vida da cidade para os idosos, porém, é um assunto muito mais complexo que a mobilidade. A vida ativa dessa população nas dinâmicas da sociedade são fundamentais para garantir uma integração real desse idoso, como defende Adriana Paiva, que é terapeuta ocupacional, especialista em gerontologia e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, em Pernambuco. “Uma cidade verdadeiramente amiga da pessoa idosa vai muito além da acessibilidade física. A participação social é um fator imprescindível para o envelhecimento bem-sucedido e saudável. Envelhecer não é só se locomover na cidade, é estar inserido nesse meio.”

Segundo a especialista, evidências recentes mostram que idosos socialmente ativos apresentam melhores indicadores de saúde e maior preservação das funções cognitivas, além de menores índices de isolamento e depressão.
Entre as iniciativas que poderiam transformar a experiência do envelhecimento na cidade, Adriana destaca a criação de Centros-Dia para idosos, modelo já adotado em diversos países europeus. Esses espaços funcionam como locais de acolhimento e convivência durante o dia, oferecendo atividades físicas, cognitivas e culturais, além de suporte para famílias que precisam conciliar trabalho e cuidados.
“Esse espaço não é só um lugar para ficar. Ele precisa ter estímulo, atividades de dança, lazer, arteterapia, estimulação de memória, estimulação cognitiva e atividade física”, afirma Adriana. Segundo ela, a ampliação desse modelo seria um dos principais indicadores de uma cidade preparada para o envelhecimento. “O grande padrão-ouro que a gente poderia falar de uma cidade amiga do idoso seria ter vários ambientes desse tipo.”
O desenvolvimento de políticas voltadas ao envelhecimento exige, no entanto, uma visão integrada da cidade. Além de construir os espaços de convivência, é preciso planejar a descentralização dos equipamentos públicos e a oferta de atividades nos bairros, especialmente nas áreas mais afastadas do Centro.
Para a socióloga e geógrafa Gerly Fialho, o desafio vai além da oferta de serviços específicos para idosos e passa pela construção de ambientes urbanos capazes de garantir autonomia e dignidade ao longo do envelhecimento. “É preciso adaptar as cidades, ressignificá-las pensando na população idosa.”
O Recife, por exemplo, já conta com algumas iniciativas voltadas à população idosa, como exemplos o recém-inaugurado Centro de Convivência do Idoso, os equipamentos do Compaz, as atividades oferecidas no Geraldão e programas desenvolvidos por universidades como a UFPE, a UFRPE e a Unicap por meio dos seus núcleos de atenção ao idoso.
Para a gerontóloga Adriana Paiva, essas experiências representam avanços importantes ao promover atividades físicas, estímulos cognitivos e oportunidades de convivência. O próximo passo seria ampliar o número desses equipamentos e implantá-los em diferentes regiões da cidade para alcançar idosos que vivem em bairros mais afastados. Ela defende que é preciso garantir que eles estejam próximos dos locais onde os idosos vivem ou que existam condições seguras para o deslocamento.
Pernambuco está envelhecendo mais rápido do que suas cidades estão se adaptando a essa mudança. Enfrentar esse desafio exigirá não apenas investimentos em infraestrutura e serviços, mas também a inclusão dos idosos nas decisões sobre o futuro das cidades.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)


