Capibaribe resiste, mas chega ao limite diante do despejo contínuo de esgoto
Especialistas alertam para riscos ecológicos crescentes e para a distância da Região Metropolitana do Recife das metas de saneamento *Por Rafael Dantas Você já imaginou uma região metropolitana que é referência em tecnologia, abriga instituições de ensino de ponta e, ainda assim, tem quatro de suas principais cidades entre as 20 piores do País em saneamento básico? Esse é o cenário enfrentado por Recife, Paulista, Olinda e Jaboatão dos Guararapes. Uma realidade patente aos olhos dos moradores ou turistas que observam os rios da RMR. Mesmo após 13 anos do início do Programa Cidade Saneada (Parceria Público-Privada entre a Compesa e a BRK Ambiental), a cobertura da rede de coleta de esgoto avançou de 30% para 38%, um progresso tímido diante do longo caminho que ainda separa a Região Metropolitana do Recife da universalização do serviço. Ao longo desse intervalo, ao menos a população da capital pernambucana voltou seus olhos com mais atenção para o Rio Capibaribe, em razão da abertura de diversos parques públicos em suas margens. No entanto, essas áreas de lazer e contemplação dividem a paisagem com o odor do esgoto e com as águas escurecidas pelo despejo contínuo de dejetos, além da presença de resíduos sólidos que flutuam na superfície. “Não existe córrego, rio, riacho ou canal no Recife que não esteja poluído”, sentenciou Ronald Vasconcelos, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Ele atua nas áreas de saneamento, drenagem urbana e habitação de interesse social, além de integrar a equipe do projeto Recife Cidade Parque. De acordo com o engenheiro, a carga orgânica despejada nos rios favorece o crescimento da vegetação aquática e se mistura ao lixo, comprometendo o escoamento da água, agravando alagamentos e falhas na drenagem urbana. Com a ampliação do uso dos espaços públicos às margens do Rio Capibaribe, como o Parque das Graças, os odores e os dejetos tornam-se ainda mais evidentes para moradores e visitantes. Em um olhar mais amplo que o da RMR, os indicadores oficiais indicam que em Pernambuco, 70,5% não têm acesso à rede de esgoto. No cenário nacional, 40,3% não têm acesso a essa coleta. Ou seja, o problema não se concentra na capital. O Rio Capibaribe, por exemplo, recebe poluição em vários trechos do seu amplo percurso pelo território pernambucano. No Ranking do Saneamento 2025 do Instituto Trata Brasil, que foi realizado com 100 cidades brasileiras, a pior situação é de Jaboatão dos Guararapes que foi classificado na 89ª colocação. Apesar de ser um dos municípios com a economia mais pujante do Estado, possui apenas 21,47% de atendimento de esgoto. O Recife tem uma taxa de cobertura de 41,59%, enquanto que Paulista 40,26% e Olinda apenas 37,38%. Indicadores incompatíveis com o desenvolvimento desses municípios, mas que ajudam a compreender a difícil realidade das populações da RMR. Esgotos a céu aberto e falta de redes coletoras não são exceção. O diretor de Parcerias e Projetos Estratégicos da Compesa, Ricardo Torres, ressalva, no entanto, que há um conjunto de grandes investimentos realizados nos últimos três anos que ainda não estão inseridos nesse relatório, que utiliza ainda os dados do Sinisa (Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico) de 2023. “Os dados do Sinisa têm um atraso muito grande e não refletem os investimentos mais recentes.” Dados da Compesa informam que desde o início da PPP, o volume de esgoto tratado quadruplicou, passando de 540 para 2.000 litros por segundo. Jaboatão dos Guararapes, por exemplo, que é o local mais crítico no ranking, já teve concluída a primeira etapa da ampliação dos serviços de esgotamento sanitário e as obras da segunda etapa estão em fase final. Juntas, elas contemplam 200 mil pessoas e não apareceram nos cálculos do Trata Brasil. O diretor menciona que nos últimos anos, apenas pela empresa privada, foram feitos investimentos superiores aos R$ 300 milhões por ano desde então – e de forma crescente. Além disso, Ipojuca recebeu aportes de R$ 65 milhões do Banco do Nordeste, para obras do SES (Sistema de Esgotamento Sanitário) de Porto de Galinhas. Ao todo, já foram investidos pela concessionária R$ 3 bilhões desde o início do contrato. A expectativa é que esse montante chegue a R$ 9 bilhões até 2037. Acerca do derramamento dos esgotos nos rios, Ricardo Torres afirma que a fiscalização dessa irregularidade não é atribuição da Compesa, mas dos órgãos ambientais competentes – sejam municipais, como as secretarias de Meio Ambiente, ou órgãos estaduais como a CPRH, e federais como o Ibama ou o ICMBio. De acordo com ele, o papel da Compesa se restringe à operação do sistema de coleta e tratamento onde a rede existe, não à repressão de irregularidades. DISTÂNCIA DA UNIVERSALIZAÇÃO De acordo com o relatório do Instituto Trata Brasil, apenas “um indicador de coleta de esgoto maior ou igual a 90% pode ser considerado adequado, em linha com o Novo Marco Legal do Saneamento Básico”. O desempenho dos principais municípios pernambucanos, portanto, estão bem distantes desse alvo, que é fixado em lei. “Estamos numa situação ainda muito ruim. Conseguimos resolver muito pouco do que estava originalmente previsto em termos de cobertura e tratamento de esgoto”, analisou o engenheiro civil Antonio Miranda, especialista em saúde pública e membro do do Comitê Tecnológico Permanente do CREA-PE. Além do lento avanço da cobertura, mesmo com a PPP do Saneamento, Antonio Miranda levantou um outro problema. A chegada da rede coletora na rua não garante automaticamente a conexão com as residências. Ele destaca que devido aos custos para cada família conectar-se à rede de coleta, muitos preferem permanecer utilizando fossas ou injetando o esgoto nas galerias pluviais, canais, rios e mangues. “Não basta estender redes coletoras e deixar a caixinha na calçada; é preciso garantir que os imóveis se conectem e desativem todas as ligações irregulares. Você faz um grande serviço, uma grande obra, um grande empreendimento e olha para o córrego: continua malcheiroso”, alertou Miranda. “O sistema, quando você observa criticamente, não está funcionando. Não é uma crítica, é uma constatação óbvia.” A Compesa também
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