Ecossistema tecnológico comemora o crescimento das empresas e do faturamento, as iniciativas de revitalizar o Bairro do Recife e o incentivo à formação de profissionais da área de inovação *Por Rafael Dantas Há 25 anos, o Bairro do Recife vivia o mesmo esvaziamento que atingia os centros das grandes capitais brasileiras e de várias cidades do mundo. As atividades econômicas tradicionais haviam perdido força, o número de moradores diminuía e o território histórico parecia perder sua função urbana. Foi desse vazio que surgiu o Porto Digital. Hoje, o ecossistema soma 21 mil postos de trabalho, 475 empresas e um faturamento de R$ 6,5 bilhões, números que reforçam uma vocação cada vez mais global. A imersão do setor de tecnologia em inovação e empreendedorismo transformou a paisagem do bairro e segue impulsionando um crescimento que está longe de alcançar seu limite. O desempenho do ecossistema nos últimos anos surpreendeu até o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena. “Fizemos algumas apostas e deram um resultado muito significativo. A principal delas foi na formação de capital humano. O Porto Digital ultrapassou as nossas expectativas e temos agora a projeção de gerar até 60 mil empregos nos próximos 25 anos”. Com mão de obra qualificada, vinda de diferentes iniciativas, programas e empreendimentos, o Recife se consolidou como um dos principais formadores de profissionais de tecnologia do País. Pierre ressalta que alguns dos gigantes do Porto Digital seguem sendo empresas que nasceram aqui, como o Cesar, a Neurotech e a Tempest. Esses convivem com grandes players nacionais e globais, a exemplo da Accenture que é norte-americana, mas tem sede na Irlanda, e da japonesa NTT Data, e com centenas de startups que estão na batalha para escalar seus negócios. A Stellantis, empresa francesa que tem uma planta industrial em Goiana, também tem um Software Center instalado no ecossistema. É um ambiente dinâmico tanto para a economia, como para o urbanismo local. EMBARQUE DIGITAL Para Pierre Lucena, o Embarque Digital é hoje uma das “infraestruturas invisíveis” mais estratégicas do Porto Digital. O programa, realizado em parceria com a Prefeitura do Recife, amplia a formação em tecnologia na rede pública, democratiza o acesso ao setor e cria uma base de talentos que alimenta diretamente o crescimento do ecossistema. Um marco que, por consequência, tem atraído grandes empresas para o ecossistema e que tem fornecido trabalhadores-empreendedores para alavancar os negócios locais. Um dos jovens recifenses que passou pelo programa e acabou de se formar é Vinicius da Silva Grillo, 22 anos. Ele estava estudando para concursos quando descobriu o Embarque Digital e decidiu concorrer. Ao conseguir a vaga, em 2023, iniciou a formação na Unicap em Sistemas para Internet. A trajetória de Vinícius começou ainda no ensino técnico, na Escola Técnica Estadual Cícero Dias, onde teve o primeiro contato com programação de jogos e fundamentos da tecnologia. Apesar dessa base, a área ainda parecia “nebulosa”. Ao ingressar no curso, Vinícius encontrou uma realidade completamente diferente da formação técnica anterior: mais prática, mais rápida e mais próxima das demandas reais do mercado. A residência de software, realizada em contato direto com empresas do ecossistema, foi o ponto decisivo. Ele participou de desafios com grandes companhias, alternando projetos a cada semestre. Esse contato, afirma, trouxe clareza sobre caminhos possíveis na carreira e sobre como o setor funciona na prática. Depois de concluir o curso, Vinícius chegou à Deloitte, onde atua como analista de sistemas na área de integração e dados. A dinâmica da consultoria, com diferentes projetos, clientes e desafios, o surpreendeu por ser semelhante à lógica do Porto Digital. “É um ecossistema lá dentro também”, destaca. A experiência ampliou sua visão profissional e o motivou a continuar os estudos. Agora, recém-formado, planeja iniciar uma pós-graduação em gestão de projetos e agilidade. “A área de tecnologia tem espaço para todo mundo. O Embarque incentiva muitas meninas na área, o que não era comum até um tempo atrás. Hoje, inclusive, trabalho com pessoas de todas as idades e realidades econômicas”, afirmou. Histórias como a de Vinicius se multiplicaram nos últimos anos, levando o Recife a consolidar-se como a capital brasileira com maior número de estudantes de tecnologia da informação por habitante. Agora, são 717,8 alunos matriculados a cada 100 mil habitantes, segundo o Censo da Educação Superior 2024, uma liderança mantida há sete anos consecutivos e quase 50% acima da segunda colocada, Brasília. Além de registrar um salto no número de concluintes, que passou de 728 em 2022 para 1.427 em 2024, o Embarque Digital tem ampliado a diversidade no setor, com 32% de participação feminina e 60% de estudantes negros, índices muito superiores às médias nacionais. Com modelo pedagógico inclusivo e forte conexão com o mercado, o programa também mantém evasão significativamente menor, cerca de um terço da taxa brasileira. NOVOS INVESTIMENTOS LOCAIS O Recife celebrou o investimento da multinacional francesa Capgemini que passou a integrar o Porto Digital. Para 2026, a empresa deve quadruplicar o seu quadro de profissionais na cidade e criar pelo menos mil novos empregos na capital pernambucana. Outra novidade recente foi a decisão da EY (Ernst & Young) em construir no Recife um Centro de Entrega de Serviços. O empreendimento, que tem centros tecnológicos semelhantes na América Latina apenas na Colômbia e na Costa Rica, deve gerar na capital pernambucana 350 empregos. Nos últimos anos, outros investimentos de destaque que passaram a fazer parte do polo foram a Coca Cola, o Bradesco, a Liferay, a Deloitte e a Baterias Moura. Juntas, apenas essas empresas anunciaram aproximadamente 3 mil vagas. O Banco Inter também reforçará o movimento de chegada de grandes empresas ao Porto Digital. A fintech está se instalando no Paço Alfândega onde alugou o último espaço de aproximadamente 900 m². Segundo Pierre Lucena, o banco já iniciou a reforma do ambiente, que deve abrigar sua nova operação. RECUPERAÇÃO IMOBILIÁRIA Além de gerar empregos, essa dinâmica tem contribuído para a recuperação imobiliária do histórico Bairro do Recife. Nesses 25 anos de atividades, a Área de Arquitetura e Obras do Núcleo de Gestão do Porto